terça-feira, 27 de setembro de 2016

Pêlos

Aproveitando o gancho da última publicação, de fato há cinco anos eu era bem idiota.

O mais interessante é que cinco anos serve bem direitinho para um momento em que minhas perspectivas de vida começaram a mudar consideravelmente: foi quando entrei na faculdade.

Meus dispositivos de mudança foram muitos: a própria faculdade em si, o projeto VER-SUS, meu amado Elos Coletivo, o programa PET-Saúde, o intercâmbio com Ciência sem Fronteiras, além de muitos acontecimentos em minha vida pessoal que serviram de substrato para muita reflexão.

Dentre as reflexões, gostaria de falar sobre minhas reflexões sobre pêlos.

Acreditam que quando eu ainda estava com meu ex-namorado eu incentivava ele a tirar a "monocelha", porque EU não gostava dela (sendo que a sobrancelha era dele e que portanto quem poderia ou não gostar dela era ele!)?!

Pois é, eu era idiota. De fato, tbm incomodava com a barba, mas não era por estética, mas pq arranhava mesmo, hahahaha...

E hoje?! Hoje penso um tanto diferente - após muitas oportunidades e muitos espaços de reflexão, dentre os quais o meu querido feminismo, ao qual sou muito grata por essa coisa linda ter entrado na minha vida!

Hoje questiono inclusive o fato de mulheres terem que se depilar! Há um vídeo ou texto, não recordo, que fala sobre o quão mutilante e traumatizante esse ato pode ser na vida de uma mulher, com o qual me identifiquei tanto que cheguei a compartilhá-lo duas vezes no facebook mesmo sem perceber que era a segunda vez, heheh... se eu encontrar, posto aqui!

Falando sobre pêlos com outras gurias, me chamou a atenção como há uma tendência natural de normalizarmos o machismo! Já pararam para pensar nisso?!

O diálogo foi algo assim:

"Acho péssimo termos que nos depilar! Se parar para pensar que uma depilação com cera de virilha muitas vezes chega a sangrar, não faz sentido nenhum sermos obrigadas a nos auto-torturarmos!"

Resposta imediata foi:

"Mas eu nem acho tão ruim me depilar! Acho até bem higiênico."

E a outra que veio na sequência foi:

"Ah, mas não é só mulher que se depila, também tem homens que se depilam..."

Enxergam a tendência de normalizar a questão!?

Gente, não estou falando que todas as mulheres não devem mais se depilar, nem estou falando que os homens não podem se depilar!

Estou falando que eu, como mulher vivendo na sociedade em que vivo, não tenho a OPÇÃO de não me depilar sem sofrer as represálias consequentes de não se seguir um padrão aceito!

És uma mulher e quer te depilar? Ótimo, seja feliz!

És um homem e quer te depilar? Ótimo, seja feliz! Caso tu não queira, sem problema tbm, tudo certo!

Mas eu como mulher não querer me depilar é sinônimo de relaxada, suja, nojenta...

Enfim... sei que estamos melhorando... aos poucos vai, tenho que crer que vai... mas enquanto isso vamos tentando derrubar todas as barreiras e convenções que pudermos - inclusive as nossas mesmas!

terça-feira, 20 de setembro de 2016

É preciso ver ao vivo - "Há 5 anos eu era bem idiota"

"HÁ 5 ANOS EU ERA BEM IDIOTA

Há cinco anos eu pensava que bolsa família era um exagero populista.

Achava que pegar remédio de graça no SUS era meio demais.

Achava que gay afeminado era semvergonhice.

Pensava que feminismo era o contrário de machismo.

Achava que lutar pela descriminalização do aborto era coisa de gente desalmada.

Achava que a legalização da maconha era algo absurdo e descabido. Coisa de vagabundo.

Achava que acabar com o financiamento privado e instituir o financiamento público de campanha era um desaforo para tirar mais dinheiro do povo.

Pensava que bandido preso tinha que sofrer mesmo, tinha que dormir no chão e comer mal. Quem mandou ser bandido?!

Sim, eu era essa pessoa vivendo nesse grau de mediocridade! Que vergonha! Mas, até eu tive salvação!

Há 5 anos reduzi drasticamente o tempo que dedicava a ver TV. Parei de levar em conta a opinião de gente que só se informava pela mídia hegemônica e busquei textos e reportagens de forma independente. Vi filmes que não passavam na sessão pipoca. Conversei com oprimidos: gays, lésbicas, negros, periféricos, analfabetos, mães solteiras...

Porém, penso que o que mais me transformou foi conhecer diretamente a realidade das pessoas mais pobres. Eu não queria saber de ouvir falar. Queria sentir o cheiro, pegar com as minhas mãos.

E lá fui eu, ser médica de família de pessoas que não tinham nada. Mesmo quando trabalhei em bairros de classe média, sempre, uma boa parte da população que eu atendia vivia em situação de pobreza, alguns tangenciando a miséria.

Foi transformador. Eu descobri que bolsa família servia pra comer. Vi mulheres pobres, abandonadas por seus homens escrotos, indo se submeter a abortos clandestinos em açougues de fundo de quintal enquanto eu ficava de cá rezando (naquela época eu ainda rezava). Vi mães pretas chorando a morte violenta de seus filhos pretos num tribunal sem direitos, sem advogado e sem juiz. Vi homens magros, judiados do sol de uma vida inteira, morrerem novos de tanto trabalhar. Vi crianças peladas, sentadas na terra da rua. Vi ruas de terra, carroças, cachorros e gatos em cima das mesas. Vi loucos, vi bêbados, vi feridos.

O que eu acho que falta para grande parte das pessoas no Brasil é ver. Não pelo jornal. Ver ao vivo. Por que é impossível ver e não se tocar. É impossível sentir o cheiro da miséria e dela não compadecer-se. A não ser que você seja um completo monstro.

Só um monstro seria capaz de querer tirar mais direitos dessas pessoas MISERÁVEIS. Só um monstro poderia pensar em reduzir ainda mais o acesso desses homens e mulheres ao sistema público de saúde. Só um monstro poderia pensar em fazer esses moribundos trabalharem mais uns anos de suas secas vidas.

Precisamos de um movimento. FORA, MONSTROS."

Julia Rocha - 18/09/2016