Se perguntarmos a alguém "tu tem preconceitos?", geralmente a pessoa responde rapidamente e quase ofendida que "não, né?".
Pois é, eu também queria acreditar que eu não tinha preconceitos. Não queria aceitar que eu também poderia ter defeitos que tanto eu abomino... Mas o fato é que vivemos numa sociedade pautada por pré-julgamentos e basta nascermos nela para absorvermos muitos conceitos e pré-conceitos mesmo sem perceber.
Eu gostaria de dizer "não, eu não tenho preconceitos", mas infelizmente sei que tenho. Não me orgulho disso, mas ao mesmo tempo esforço-me para não me culpar, pois não escolhi nascer nessa sociedade que trata como "normal" situações que infelizmente são apenas comuns. Pelo contrário, reconheço e aceito meus privilégios e luto a cada dia para desfazer meus comportamentos que se tornaram "medulares" mesmo sem eu querer.
Essa consciência não foi construída rápida nem facilmente - na verdade ainda está em construção. Mas posso dizer que um dos textos que mais me despertou para a reflexão foi o que segue. Boa leitura.
Eu, que sou a favor de cotas, que abomino racismo, que desde os tempos de creche tenho amigos e colegas negros (embora poucos, devido a disparidade absurda de renda média por cor de pele) senti um desconforto de alguns segundos.
Eu que tenho 24 anos, estava tranquilo no momento, não sou paranoico quanto à violência e tenho o ensino superior quase completo me preparei por segundos para atravessar a rua.
Eu que trabalho em hospital e posto de saúde com pacientes negros, funcionários negros, médicos negros, enfermeiros negros, etc e os julgo e respeito pelo conteúdo do caráter e não pela cor da pele, olhei para um pai e um filho andando na mesma rua que eu com roupas semelhantes às minhas e pensei 'quem são esses caras?'.
Quando passei pelos dois olhei para o menino, de uns 12 anos, e me senti triste, envergonhado, humilhado. Olhei então para o pai, que fez um rápido aceno de cabeça para mim, me olhando nos olhos, e o sentimento aumentou.
Se tivesse conseguido falar algo naquele momento teria pedido desculpas aos dois, teria parabenizado o pai pela coragem de sair na rua para ter um momento pai-e-filho em um país tão cheio de gente perigosa e preconceituosa em vez de deixar o medo de pequenos e grandes ataques racistas vencerem seu direito de ir e vir de noite e de dia.
E diria ao menino: "Não se contente com brancos não atravessando a rua e não desviando o olhar. Não se contente com cotas. Não se contente com um 'branco consciente' como eu."
E terminaria com: "Querem me dizer alguma coisa?" Porque eu sei que é importante que nós brancos falemos também de racismo, mas o principal é ouvir mais e mais de quem muito viveu mas ainda pouco foi ouvido sobre isso."
Gustavo HR
