terça-feira, 8 de agosto de 2017

Higiene ou estética?

"Para refletir...

Sabonetes íntimos de frutas.
Perfumes íntimos de flores.
Maquiagem para a região íntima.
Cirurgias de simetrização da região íntima para meninas ainda virgens.
Depilação a laser, cera quente, fio...

A sociedade não espera que sejamos mulheres, com características de mulheres adultas, mas bonecas infláveis ou ideais de consumo pornográficos.

E ainda há os que alegam higiene... Higiene é muito diferente de estetização. Que higiene é essa que só atinge em massa o público feminino?

O mesmo país que lidera o ranking de meninas virgens fazendo cirurgia de estetização da vagina é o mesmo país que precisa governamentalmente fazer campanha para incentivar os machos a lavarem o pinto por conta da falta de higiene íntima que causa mais de 1000 despirocações por ano."

Lizandra Souza

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O melhor plano de saúde

Lá vem textão porque sim:

Pensem comigo... Vivemos numa sociedade capitalista, certo? Basicamente tudo que acontece ao nosso redor gira em torno do lucro:
Desde um outdoor com "promoções" de roupas e sapatos no caminho do trabalho, até um comercial que ouvimos no aplicativo de música no meio da playlist grátis que te "oferece" plano para assiná-lo, por exemplo.
Certo, há muitas vantagens nisso, concordo, temos liberdade de escolha, cada um compra o que quer. E desvantagens, mas não vou entrar nesse quesito agora. Ok até aí...

O nosso Sistema Único de Saúde não visa ao lucro! Olha que loucura! Temos um âmbito da sociedade que gira uma quantidade incrível de dinheiro que NÃO visa lucro! Qual vai ser o mais-valia desse giro todo de capital?! Ninguém! Mas então quem que vai ganhar com a saúde?! O povo, a população, o bem geral, QUALQUER pessoa que necessite, pois o SUS é UNIVERSAL, TODO cidadão brasileiro tem direito a ele!
Sinistro, né? Mas tem mais: ele é um mercado sem fim! Assim como aprendi numa das aulas de Saúde Pública que tive durante o intercâmbio, a saúde é um mercado com demanda infinita e recursos finitos. Ou seja, sempre haverá pessoas que podem adoecer, não há como prever quem ou quando; mas sempre haverá um número x de recursos, humanos ou financeiros, por exemplo, limitado, finito.
Pensa só: demanda infinita! Imagina tu ter um comércio com demanda infinita?

Certo, estamos juntos até aí?! Ok.

Agora pensemos na mídia. Ela também visa lucros, correto? Ok, então com o que que a mídia vai lucrar mais? Incentivando o SUS ou contribuindo para seu desmonte - e, assim, oportunizando a privatização da saúde e ganhando clientes (como convênios privados) que são potenciais investidores e patrocinadores do seu negócio?

Confesso que estou surpresa com a série SOS SUS sobre a qual fiz uma postagem aqui no facebook esses dias. Essa série, que traz reportagens sobre o SUS que dá certo, está passando na Globo - atual mídia hegemônica que não ganharia NADA com esse serviço à sociedade. Mas enfim, permaneço com meus dois pés atrás, mas feliz de ver essa divulgação.
Ao mesmo tempo, temos outro seriado chamado Sob Pressão que está passando no mesmo canal. Um seriado ficcional que está retratando de forma escrachada a falta de recursos do SUS, através da utilização de uma caixa de papelão como berço de um neonatal, por exemplo.

O primeiro programa dura 15 minutos e aparece dentro de outro chamado Como Será que passa nos sábados às 7h.
O segundo dura 50 minutos e passa em horário nobre às 23h das terças-feiras.

O que refletir a partir disso?
Deixo para cada um chegar às suas conclusões.

Por fim, ressalto: o desmonte do SUS é interesse de muitos - quem sabe até de nosso ministro da saúde, engenheiro civil e empresário, que tem forte relação $$$ com a Unimed...
Mas o SUS, ah o SUS, ele é interesse de TODOS! Lutemos por ele! Baseado no NHS (National Health System - sistema de saúde pública da Inglaterra), que conheci de pertinho, ele tem sim potencial e é exemplo para muitos países. Um baby de menos de 30 anos quando comparado ao NHS que já tem quase 80. Vem comigo, vamos ajudá-lo a aprender a caminhar?!

Coragem

Vivências de um estágio...

1. Já havia sido avisada de que provavelmente perguntariam a especialidade que almejo e que, sendo MFC a resposta, viria bomba pela frente. Dito e feito. A pergunta veio, engasguei, pensei, respondi baixinho: medicina de família. "Mas o que que está acontecendo que tá todo mundo querendo isso agora? Mas por que que tu quer fazer isso?", "Porque eu amo!" foi tudo o que eu consegui responder no momento. 
Em outra situação com a mesma pessoa, fui questionada genuinamente "Tá, mas me explica, tu não fica mal de saber que tu vai fazer uma residência para trabalhar no mesmo local que outros médicos sem especialidade trabalham?". Confesso que a pergunta me pegou em cheio e eu nunca tinha pensado nesse ponto de vista. Orgulho! Esse fato fere nosso orgulho! Eu ficava de cara de pensar que médicos sem especialidade fazem merdas e ferem a fama do médico de família, fazendo com que ele seja mal visto. Mas nunca tinha pensado no lado do orgulho. Pensei. "Não! Eu considero errado ser permitido que eles trabalhem no nosso campo, no nosso 'mercado', por não considerar que eles sejam preparados para isso. Mas também entendo que não temos médicos de família suficientes para o número necessário. Mas não me incomoda pensar que 'estarei no mesmo nível que eles'." A partir disso, se desenvolveu um diálogo muito legal. Falou-se de medicina de família, de SUS, de saúde pública, de classes sociais, de origem familiar... Não necessariamente concordou-se com tudo, mas os lados foram ouvidos e compreendidos. Confesso que me surpreendi ao perceber que tínhamos a "mesma origem" e ainda assim ela não pensava como eu. Mas tudo bem, somos livres para pensar diferentemente. Confesso também que, por pensarmos diferente, me surpreendi quando fui tratada com respeito. Até recebi oferta de carona. Tive a oportunidade de rever mais um pré-conceito e aguçar minha integralidade para perceber que o ser humano como um todo é sim composto de qualidades e defeitos, sem que um inviabilize o outro.
No dia seguinte, mais uma surpresa gostosa: "Quase te mandei uma mensagem ontem... Fiquei pensando muito em tudo que conversamos, foi muito legal. Obrigada pela conversa!". Que sensação maravilhosa. Por saber que uma pessoa supostamente acima de mim na hierarquia gostou de conversar comigo, por saber que ela ficou pensando no que conversamos, por saber que consegui fazê-la ter pontos de vista diferentes do que ela está acostumada, por saber que deixei minha marca.

2. Estávamos no bar eu, dois residentes e um acadêmico. Uma mulher e três homens, invariavelmente um local hostil - assim como toda neurocirurgia dominada por "machos alfa". 
"Reparei que nos prontuários do ambulatório consta a assinatura de um R2 que não está por aqui e ouvi falar que ele largou a residência. É verdade isso?"
"Sim!"
"Bah, que tenso... Mas chegaram a ficar sabendo se aconteceu alguma coisa, por que que ele teria largado?"
"Ele resolveu virar homossexual!"
"Oi?!?!?!?"
"Ah, resolveu roçar a barba em outras barbas..."
E os demais deram uma risadinha de leve, afinal de contas foi "apenas mais uma piadinha como tantas outras que ocorrem no bloco cirúrgico". Mas eu não pudia acreditar que mais uma vez eu estava presenciando algo tão "normalizado", que não é normal, mas sim infelizmente comum. Não pude não pensar instantaneamente em meus amigos gays e em todo sofrimento que vivem no dia a dia por conta dessa sociedade deturpada. Ou nos gays que, por mais que não tão próximos alguns, mas conhecidos, somam três que já tiveram seus narizes quebrados por estarem em festas beijando outro homem. Mantive a serenidade, não esbocei um sorriso sequer, pois de fato não havia absolutamente graça nenhuma no que havia sido dito. Não sei como, não sei de onde, mas me veio uma resposta na mente na mesma hora. Foi rápido demais, mas sei que pelo menos inconscientemente eu pensei: "E agora? Respondo ou não? O que vão pensar de mim? Será que não vão mais gostar de mim se eu responder?". Mesmo assim, não hesitei:
"Era para ser engraçado?"
Com minha visão periférica, percebi que os outros dois recolheram seus sorrisos, levantaram suas cabeças e olharam constrangidos para o que havia feito a "gracinha".
"Era... Mas se não foi, tudo bem também... Ele queria ir para a Suécia, foi isso... Ele percebeu que aqui estaria perdendo tempo..."
"Hmm, Suécia, que legal..." 
Mais uma vez mantive a serenidade e segui o assunto para não dar flashes ao acontecido. Logo após isso, me senti constrangida, como se "tivesse forçado a barra" ou "sido a chata politicamente correta do rolê". Azar. Sou mesmo. E percebi que fiz todos refletirem sobre a suposta piada. Posso ter sido aparentemente inconveniente, mas sei que fui na verdade um meio de trazer uma oportunidade de reflexão. Assim, logo em seguida, o constrangimento se tornou orgulho. Fiquei orgulhosa e muito por ter tido a ideia de resposta e a coragem de me colocar mesmo num ambiente hostil. Orgulhosa por mim. Por meus amigos. Por todos gays.
A conversa continuou, seguiu. E sim o clima ficou normal. 

3. Logo após esse momento, havia uma reunião. Uma reunião sabidamente desorganizada, sem ordem de fala, repleta de homens e pessoas supostamente acima de mim na hierarquia insana da medicina. 
Eu tinha dois casos de pacientes para discutir - e precisava discuti-los, pois era minha última semana no estágio.
Mais um ambiente hostil, sem espaço de fala para os próprios "donos" do espaço... Quiçá para uma doutorandA. 
Pois bem. Tarefa dada, tarefa cumprida. Preciso ser ouvida. Mais uma vez, não sei bem como, não sei bem de onde, me veio coragem e desenvoltura para lutar e conseguir meu espaço de fala. Discuti os meus dois casos e ainda consegui espaço para o acadêmico discutir o seu caso, pois sabia que ele era tímido e no "menor nível hierárquico" do lugar - me senti na obrigação de fazer isso por ele, pois é o que eu gostaria que tivessem feito por mim.
Resultados: fui confundida com uma nova residente da neurocx (sim, fiquei bem feliz de ter um desempenho considerado suficiente para um "nível hierárquico maior") e elogiada através de uma brincadeira do tipo "olha essa doutoranda aí, metendo a moral e colocando os residentes no chinelo". 
Moral da história: mesmo eu podendo ter sido considerada teoricamente a "chata politicamente correta inconveniente", isso não me impediu de mostrar minha competência e nem de ser reconhecida por isso. Ou seja, valeu a pena ter coragem. Sempre valerá. Que eu continue assim!

4. Última cirurgia do estágio, primeira de coluna, primeira com aquele preceptor. Diferentemente das de crânio (em que os cirurgiões ficam sentados e consigo ver a cirurgia de longe), nessa cirurgia eu não conseguia enxergar absolutamente nada de longe. Para chegar perto, teria que me paramentar e entrar em campo. Mas não me ofereceram em nenhum momento. Mas eu não fazia ideia de como eu poderia ser útil. Mas já tinha quatro pessoas em campo. 
Mas eu queria enxergar.
Mais uma vez, nem como nem de onde: "Professor.." "Uhmm.." "Posso entrar em campo?" [pausa dramática...] "Pode!" 
Feito!!! Conseguiria chegar perto e enxergar o que estava sendo feito na cirurgia. Quem sabe de quebra até me deixariam fechar a pele, porque né, a esperança é a última que morre, hehehe... 
Entrei em campo, passei a enxergar. Estava feliz, driblei o sono. Fazia tudo que me parecia ser possivelmente útil e que pudesse ajudá-los.
Enxerguei algo estranho. Parecia uma gaze. Mas estava tão vermelho... Perguntei: "Pessoal, aquilo ali é uma gaze, né?" Estavam conversando e ninguém me respondeu... Olhei para a instrumentadora e vi que não havia nenhum mosquitinho marcando... Será que não era? Não, mas eu acho que é... "Oi, fulana, com licença, tu pode marcar aí com mosquitinho, porque vi que tem uma gaze dentro da paciente..." "Claro sem problemas..."
Cirurgia difícil. Paciente sendo reintervida pela quarta vez, fibrose e mais fibrose. Instrumentos inadequados, tesouras sem fio, afastadores estragados. Aos trancos e barrancos, ela foi finalizada. Terminaram o que tinha que ser feito. 
"Deu, já tá bom... Não tem mais nada aí, né? Já tiramos os algodões e tudo mais, né?"
Sim, responderam os residentes se preparando para fechar a FO.
"Não, mas a mocinha aqui disse que tem gaze lá ainda!" - disse a técnica.
"O quê? Mas onde?"
Pensei "Bah, será que eu que tô viajando e atrasando a finalização da cirurgia? Será que não é gaze? Será que é só o tecido da paciente?"
"Ali ó..."
O preceptor puxou com a pinça... Saiu uma gaze. Puxou de novo... Saiu outra. E de novo... Outra! Todos ficaram em choque na sala de cirurgia. 
"Parabéns, nota dez no estágio para ti, excelente!" - disse o preceptor.
"Bah, mandou muito bem, salvou a paciente" - disse um dos Rs.
Na hora, confesso que senti um alívio por serem gazes, pois eu não estaria viajando. Não sei, parece que não tinha me caído a ficha do que significava aquilo... Foi um tanto assustador pensar que ninguém tinha visto, mas fiquei muito feliz de saber que pude ajudar aquela paciente - até quiçá salvá-la.
Precep "Olha, pode ser cirurgiã, hein? Ainda mais neurocirurgiã, porque tem que estar ligada mesmo!"
R "Pena que ela não quer cirurgia, né?"
P "Ah, é? O que ela quer?"
R "Medicina de família..."
P "Ah, não... Na medicina de família não precisa ser assim, deixar uma gazezinha não faz diferença..."
Eu "Ah, não?!?! Medicina de família não é medicina então?"
R "Calma, ninguém quer ofender aqui não... É só que tinha tanto potencial..."
E "Tu vê né... Eu tenho tanto potencial que posso até escolher o que eu quero, coisa boa né?"
R "É, pois é, mas né, podia aproveitar mais..."
E "Calma, não te preocupa, fica tranquilo e aproveita que assim tu não vai ter que te preocupar em concorrer no mercado comigo..."

Até o precep sisudo não se aguentou e riu. Nem eu acreditei que aquele tanto de resposta estava saindo da ponta da minha língua! Hahaha... Foram muitas alfinetadas e de todos os lados, mas as relações já estavam estabelecidas e todas foram levadas muito no bom humor. 
"Parabéns, tu foi uma das melhores doutorandas dos últimos tempos!"