sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Liberdade - "compilados"

Sobre genderless, sobre liberdade de expressão, sobre respeito, sobre embasamento.

1. Uol, Infância, 17.10.2016, 14h30

"Nome neutro não basta para uma criação sem estereótipo de gênero, mas ajuda

Natália Eiras
Do UOL, em São Paulo


Mica tem dois anos e apenas os cuidadores, como os seus pais biológicos preferem ser tratados, e a criança sabem o seu sexo. Um dia, Mica sai com um vestido rosa cheio de babados e, no seguinte, com um bermudão azul. Fora o visual, nem mesmo seu nome entrega seu gênero de nascimento, porque a educadora Mariana Vieira Carvalho, 29, escolheu um nome que soasse neutro.

Vivendo em Campinas, no interior de São Paulo (SP), Mariana não se identifica nem como mulher nem como homem –por isso, não se importa de ser tratada no feminino ou no masculino. Por isso, quando descobriu que estava grávida, decidiu optar por uma criação de gênero neutro. O fator pessoal, no entanto, não deixou a situação mais fácil.

"A gente ainda fica muito preso nessa binariedade. Tanto que, quando vi o sexo na ultrassonografia, comecei a pensar em nomes para a criança vinculado a um gênero", afirma Mariana.

Mariana, ao lado de Raul Almeida Carvalho, 31, que atua como profissional de psicologia, decidiu que a neutralidade tinha de vir desde o nome de registro. "Foi difícil porque não há muitas opções contemporâneas. E a gente teve o cuidado de não colocar nenhum nome que pudesse causar um constrangimento futuro."

De acordo com o terapeuta sexual Breno Rosostolato, professor da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, nomear uma criança com um termo que não entregue o sexo de nascimento ajuda a criar uma pessoa mais livre dos estereótipos de gênero, mas não é o bastante.

"A criança precisa ter condições de se representar do jeito que ela quiser e principalmente ter essa representação respeitada", fala Rosostolato.

O especialista diz que, aos cinco anos, uma pessoa já tem compreensão de si para se dizer homem ou mulher. "E se a criança cresce em um ambiente que respeita essa expressão dela por um gênero, isso dá forças para enfrentar preconceitos. A criança eventualmente vai sofrer, mas com o apoio dos pais tudo se torna mais fácil."

Para criar esse ambiente mais acolhedor, não é necessário nem mesmo entrar na discussão sobre gênero. Basta ensinar que não importa se é menino ou menina ninguém é melhor do que ninguém.

"É ensinar a se respeitar", fala Breno Rosostolato. Outro ponto é mostrar que um rapaz, por exemplo, pode, sim, entrar em contato com seu lado mais emocional, pode fazer atividades ditas femininas. "Eu mesmo nunca gostei de dirigir e isso nunca fez eu me sentir menos homem."

Bernardo, 3, é o filho mais velho da gerente administrativa Sthela Baltazar Bartholomeu, 28, e do assistente de relações internacionais Douglas Bartholomeu da Silva, 31. Ele sempre se identificou como menino e é, nas palavras da mãe, um "moleque".

No entanto, Bernardo também curte pintar as unhas das mãos. "Ele diz que está colocando cor, brilho. Bernardo me mostra os dedos falando: ‘Olha, mãe, parece um arco-íris’", fala Sthela.

Os pais de Bernardo nunca viram nenhum problema no fato de o filho gostar de passar esmalte ou brincar de boneca com a irmã mais nova, Cecília, de um ano e meio.

"Mas a minha família estranhou muito. Ficavam perguntando se ele não ia ficar confuso, se não ia saber que era um menino. Sendo que ele nunca demonstrou se identificar com outro gênero que não o designado em seu nascimento", diz a gerente.

Por mais que o nome de Bernardo não seja neutro, ele já está um pouco mais distante dos estereótipos de gênero. "Mas todo dia, quando ele vai para a escola, preciso conversar com ele de novo sobre como não existe brinquedo de menino ou de menina. Existe brinquedo de criança", afirma Sthela.

Para Marcelo Moreira Neumann, professor de psicologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, e um dos autores da pesquisa "Bullying Homofóbico e Desempenho Escolar", a neutralidade no registro facilitaria de maneira prática a vida de uma pessoa que não se identificasse com o gênero de nascimento.

"O indivíduo não teria de passar por um processo jurídico caso fosse transgênero nem enfrentaria situações vexatórias relacionadas ao nome", fala o especialista.

Cabe, no entanto, bom senso na hora de escolher uma opção que não exponha a criança a situações desconfortáveis socialmente. "É preciso ter muito cuidado com o nome porque ele é o nosso cartão de visita. Está muito ligado à nossa identidade. Um ataque ao nome nos atinge diretamente", diz Neumann.

Aspecto legal
Caso o nome escolhido seja considerado estranho, o Cartório de Registro Civil pode se negar a fazer o registro. "Existe uma regra nos casos de termos que podem expor uma pessoa ao ridículo, como é o caso de Hitler, satanás, lúcifer", explica Monete Hipólito Serra, diretora da Arpen -SP (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo).

De acordo com Monete, são poucos os nomes que são barrados, e os pais podem recorrer do veto.

Apesar de Breno Rosostolato não achar que seja o bastante, a preocupação em nomear uma criança com um termo de gênero neutro é uma decisão importante.

"O constrangimento que um transexual passa quando entrega os documentos de registro com um nome diferente do gênero pelo qual ele se apresenta é o mesmo que sofre uma pessoa que odeia o próprio nome.""

2. O Retrógrado - Porque ser moderno às vezes compromete


"Pais usam filho(a) como cobaia de Ideologia de Gênero
Estou postando um trecho dessa reportagem, pois eu quero levantar essa discussão. Qual a sua opinião sobre “Identidade de Gênero”? Eu li essa reportagem e fiquei escandalizado, pois vi dois pais que estão usando seu filho como cobaia para uma experiencia perigosa. Segue parte da repostamento, mas espero comentários depois."

3. Diego Martel
"A que ponto chegamos? Chega de hashtags, de bandeiras, de lavagem cerebral, e de ideologias! Qual é o limite?! Isso é triste. Traumático. Apenas isso."

4. Debate:

Gustavo Soibelman

"Entendo o choque cultural e o espanto, mas por mais que biologicamente possamos entender sexo como um binário (XX e XY), o gênero é incontestavelmente uma construção social. Por mais que o diferente e o novo possam gerar incômodo e alguns nós na cabeça, eles são possíveis, mas a nossa tendência é achar que a nossa cultura original é a mais certa, a mais segura, que é na qual fomos criados e inseridos. Um pouquinho de antropologia nos ajuda a entender isso, Margaret Mead escreveu em 1935 Sexo e Temperamento, um relato em 3 tribos diferentes de Nova Guiné sobre os papéis de gênero e trouxe à tona a comprovação de que os papéis de gênero e o próprio conceito de gênero são construções sociais e podem se dar de diferentes formas em diferentes sociedades, sem necessariamente isso ser deletério ou preditor de sucesso ou insucesso dentro daquela sociedade. Recomendo a leitura desse livro, ou pelo menos parte dele, pra tentar abrir um pouco a cabeça em relação a isso, por mais complicado que seja num primeiro momento. Cada vez menos, de agora em diante, o binarismo vai fazer sentido em um mundo complexo e fluido e a cultura genderfluid já é uma realidade e já tem uma comunidade de pessoas que se identificam assim e vivem assim e utilizam linguagem neutra para um gênero neutro. E quanto à reflexão da imposição dos pais, que espanta, a criança está imersa e indissociavelmente ligada a uma cultura, a partir do momento que é ser humano e, portanto, socializada e essa cultura, em grande parte, é formada pela educação proveniente dos pais. A pergunta que fica é, por que quando a cultura foge à norma é considerada imposição, mas quando respeita a norma, em questão de maioria, é considerada apenas educação?
Link do livro da Margaret Mead:

Bruno Lauda:
"Gustavo, só o que acho é…”e daí?”. Sim, tu tem razão: nossa cultura ocidental não tem nada de intrinsicamente superior a qualquer outra das culturas que vieram antes e nem às milhares de outras que irão sucedê-la. Cada regrinha que uma cultura tem, é,num certo sentido, arbitrária. Uma determinada maneira nossa qualquer de fazer as coisas certamente é diferente em outras culturas.
Por isso, questionar uma dessas nossas maneiras de fazer as coisas é algumas vezes não só permitido como desejável, quando é necessário mudar coisas que não funcionam mais. Há muitas coisas assim no momento, mas questões de gênero envolvendo crianças de 0-5 anos? Mesmo?"

Gustavo:
" Bruno, justamente, para mudar uma cultura não se utiliza a revolução, mas sim a educação. É possível educar e mudar quando adulto, mas é muito mais difícil, porque já temos um ideal, uma moral e uma personalidade formados. Portanto, esses pais que acreditam que isso é o melhor para seu filho e para a humanidade, constroem uma cultura nova, a partir de uma nova geração, ao invés de esperar a criança ser inserida numa cultura, com uma série de crenças e costumes, para depois ser desconstruída e reconstruída, eles já constroem e inserem direto. A violência que a criança pode sofrer é externa, como a Bia falou ali embaixo, e não intrínseca desse molde educativo, que continua dando amor e atenção, apego seguro e referencial maternal igual que qualquer outro."

Bruno:
"Gustavo, acredito ser profundamente imoral e injustificável usar crianças para fazer uma revolução, ou "mudar uma cultura". O objetivo da educação de uma criança deve ser o bem da criança. Não questões políticas! Como alguém pode dizer que ama uma criança quando está a usando como cobaia de um experimento psicossocial com pano de fundo político-ideológico? Se der muito errado e o resultado for um indivíduo transtornado e disfuncional, haverá solução?"

Gustavo:
"Toda escolha é política, falar algo ou se abster, comportar-se de certa maneira ou de outra, vestir a filha de princesinha ou de skatista, comprar uma Barbie ou um kit de ferramentas de engenheiro, seguir a cultura padrão ou fugir dessa curva padrão. Seguir aquilo que é hegemônico e estabelecido também é político-ideológico. Existem várias crianças no mundo que foram criadas assim, muitas dela no Canadá e Estados Unidos, também na Europa, principalmente em países nórdicos em que a língua materna tem linguagem neutra e esta é utilizada como obrigatoriedade nas Escolas Públicas, não podendo ser utilizados artigos masculinos ou femininos para se dirigir às crianças, até determinada idade em que já se definem como esse ou aquele gênero, que já têm uma identidade. Nunca foram relatados quaisquer problemas psicológicos ou constitucionais nesses indivíduos, nenhum estudo demonstrou qualquer tipo de aberração ou anormalidade, aumento da auto ou hétero-agressividade. Portanto, não acredito que essa criança possa ser disfuncional por essa razão. Da mesma forma, não acredito em revolução, mas sim em educação e esta começa com a que provém dos pais. Também acho que não é um experimento psicossocial, mas uma escolha do que eles acreditam ser o melhor, o "bem", para esta criança que é sua filha..."

Bruno:
"Sim, a Suécia fez do país inteiro um laboratório para experimentos com a ideologia de gênero. Só que não existe nem uma geração inteira criada assim. É algo tremendamente arriscado. Dando errado, quem vai consertar o estrago? Esse é sempre o problema com mudar leis, regras sociais, aspectos culturais...nunca se sabe o que pode acontecer de errado, nem o custo. Não acho certo arriscar com crianças.
Outra coisa. "The personal is political", é isso? Essa é essência do totalitarismo, não deixar nada de fora da esfera política. Daí para leis se intrometendo na vida privada - em todos os aspectos dela - é só um passo, é onde essa estrada termina. Sei que tem muita gente por aí que não vê nenhum problema nisso, infelizmente. Um receio que tenho é precisamente esse, que o que esses pais estão fazendo voluntariamente se torne obrigatório."

Gustavo:
"Essa ideia de cultura estática e reprodução contínua de uma velha cultura que já deu certo é muito enganosa. As culturas estão em constante mudança e está muito além da força de um indivíduo ou de outro. Se estamos inseridos nesse apanhado cultural que estamos hoje é porque as culturas foram se transformando, independente da vontade de alguém ou de planejamento prévio. A sociedade simplesmente não funciona assim, com essa preocupação de vai dar certo ou vai dar errado, simplesmente há um mar de influências pendendo cada um para um lado, sendo algumas influências mais hegemônicas que outras. E a humanidade vem se estabelecendo assim por milênios, e aqui ainda está, até hoje. As crianças não estão isentas de cultura, assim como qualquer outro ser humano, pelo contrário, é a parte da vida em que mais se está sendo influenciado por tendências e culturas.
Se o ideário genderless é agora uma dessa influências, tendências, culturas, tida como válida e possível, é esperado que isso chegasse alguma hora à formação dos indivíduos, até porque isso não é mais uma ideia individual, mas sim coletiva e compartilhada. E é assim que as culturas se estabelecem e se replicam, de geração em geração, desde o berço.
E quanto ao que tu perguntou sobre a ideia de toda escolha ser política, eu não me referi a um ideal totalitarista não, pelo contrário, estava me referindo a um dos pilares mais essenciais da filosofia da educação libertária. O totalitarismo me parece muito mais com o projeto "Escola Sem Partido", que esconde embaixo do tapete isso e pretende censurar e se intrometer na vida alheia, sendo totalmente político, fantasiado de apolítico, seguindo um currículo que por si só, assim como tudo na vida em sociedade, é carregado de cultura e ideologia."

Bruno:
" Não vamos discutir o ESP, até porque eu não sou a favor - por razões bem diferentes das tuas (não concordo que seria uma mordaça, creio que seria impraticável e uma faca de dois gumes).
Sim, culturas estão em constante mudança. Mas é mudança de baixopara cima, e invisível até que se concretize, como a baixa de uma maré. O que foi feito na Suécia não foi mudança cultural, e sim engenharia social, mudança de cima para baixo, planejada, com um objetivo de transformar a sociedade segundo um plano político, tão sutil e natural quanto o arremesso de um pedregulho num lago. Esse tipo de mudança raramente dá bons frutos, e, quando dá frutos ruins, eles são terríveis. Não dá para deixar de pensar nas crianças órfãs de Ceausescu, ditador da Romênia, ao considerar essa questão.
Quando se mexe numa parte da cultura, se mexe numa parte da estrutura social que ninguém sabe bem de onde veio, o que depende dela, e quais os riscos envolvidos. Pergunta: por que o ideário genderless precisa ser imposto de cima?"

Gustavo:
"Bruno, estamos de acordo quanto a isso, existe a macropolítica, que muda estruturas e ideias, como tu falou, de cima para baixo, e a micropolítica, que muda ideias, a partir de pessoas, que futuramente mudarão estruturas, se assim necessário. Eu sempreapoiei e apoiarei a micropolítica como ferramenta plena e real de mudança. Trabalhei com educação não-formal e estudei educação por muitos anos e pude realizar isso de dentro. Não sou a favor da macropolítica como ferramenta de imposição de ideias, mas ela está aí, indissociavelmente ligada à micropolítica e quando uma ideia começa a se tornar hegemônica, ou seja, quando ela vira cultura, a macropolítica está a serviço dessa ideia, que é de um coletivo. Não tenho clareza nem certeza se o que passou na Suécia passou porque grande parte da população já pensava assim e o Estado decidiu tornar lei algo que já era cultura ou se foi um grupo de pessoas que se reuniu e inventou e estabeleceu uma ideia como racional de uma lei promulgada para gerar uma transformação social. O fato é que, por mais que eu não concorde com o caminho, não acho que essa seja uma das mais nefastas e deletérias políticas que algum lugar pode ter, até porque essa inegavelmente está indissociada da micropolítica, já que é feita para o sistema educativo e fora isso porque acho o racional muito adequado e lógico. Não concordaria em nenhum aspecto se fosse algo que se aplicasse a toda sociedade e eliminasse o gênero como um todo, porque isso seria completamente contrário a ideia de liberdade que o ideário genderless prega, que é justamente a luta daqueles que não se encaixam nos conceitos de gênero que hoje existem e buscam uma alternativa, mas de maneira alguma julgando ou extirpando o direito daqueles que se identificam assim poderem exercer sua identidade.A ideia das crianças sendo tratadas de forma neutra é para que elas possam, num futuro, quando estiverem construindo sua identidade, definir-se como homem, mulher ou qualquer outra coisa, ou mesmo continuar como genderfluid."

Bruno:
"Em nível estritamente pessoal, isso é uma não-questão para mim - ou irrelevante politicamente - por isso me limitei a criticar a atitude dos pais sem questionar o poder deles. Se a maneira dos defensores de ideologia de gênero para crianças praticarem suas idéias fosse apenas de família para família, eu não teria nada a dizer sobre o assunto.
Mas não é esse o caso. O problema são os espaços públicos. Como ficam as escolas públicas, por exemplo? Sugere-se que seja imposto um vocabulário neutro e uniformes (se houver) iguais para todas as crianças? Porque foi esse modo de fazer política que ocorreu na Suécia - é isso que é fazer mudanças de cima para baixo. Aqui, o MEC poderia fazer isso do dia para noite. E todo mundo teria de aceitar, ou fugir para uma escola privada - que é o oposto do que deveria ocorrer (ideologias minoritárias e religiões é que devem ter suas próprias escolas e instituições particulares)."

Gustavo:
"Estou de acordo, como eu já disse, não acredito na mudança vertical de cima para baixo como melhor e mais efetiva para gerar algo bom e respeitoso. Seria um desastre e totalitarista se o MEC fizesse isso, porque não é parte da nossa cultura como o todoisso, tanto é que causa estranhamento nas pessoas, como podemos ver. Já na Europa há anos isso é algo muito mais presente e praticado e bem aceito. Mas o importante é que a ideia original não é uniformes únicos e absolutos, mas justamente deixar quem quiser usar saia usar saia, quem quiser usar bermuda usar bermuda, quem quiser, brincar de boneca, quem quiser, brincar de engenheiro, quem quiser, jogar futebol e que depois se quiser se diferenciar como homem ou como mulher ou não, que assim o faça. No Brasil isso se torna muito mais difícil porque não há academicamente uma linguagem neutra no português, nem mesmo é algo amplamente conhecido ou tido como válido. Mas essas outras mudanças já se podem ser feitas, no caso de liberdade de vestimento, de brincadeira, de trabalho e eu não vejo como isso possa ser negativo ou causar transtornos de identidade. Acho que é o futuro, que é a complexidade e a liquidez batendo na nossa porta e que a liberdade está aí para ser exercida."

Bruno:
"Enfim a gente concorda, Gustavo!"

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"Tá liberado!"

“Socialista do Leblon”, “burguês metido a pobre”, “ganhando mesada da mamãe é fácil”, “quero ver trocar de lugar com a empregada e ir morar no subúrbio”. 

Aos revolucionários de iPhone trago boas notícias! Tá liberado.

Isso mesmo. A partir de hoje você pode ter dinheiro e se preocupar com quem não tem. Não é maravilhoso?

Conferimos aqui e parece que existe algo chamado empatia e qualquer um pode exercitar. Tá liberado pra todo mundo experimentar!

Aliás, também ficou decidido que você não precisa fazer voto de pobreza pra ser altruísta. Mas se quiser fazer, pode.

Tá liberado morar em bairro nobre e querer que cada vez mais moradores de comunidades pobres tenham saneamento básico, segurança, acesso à saúde, educação e tudo mais.

Pode morar no Leblon, ter iPhone e ser a favor de políticas públicas de inclusão porque quer que mais pessoas tenham iPhone e morem no Leblon.

O preço do IPTU não te impede de querer justiça social. Não precisa penhorar os bens pra querer uma sociedade mais igualitária. Agora, se quiser penhorar, liberado também.

Reconhece a importância do trabalho duro e não é babaca com quem tem menos que você? Então pode ganhar mesada do papai e lutar por igualdade, sem problemas!

BREAKING NEWS! Ter um tênis foda não te impede de apoiar políticas públicas de inclusão. Aproveita, hein.

Trabalha honestamente e ganha muito dinheiro com o que faz? Tá liberado gastar como quiser e buscar equidade. Pode usar até tênis 12 molas, foda-se. Camisa polo com brasão, casaquinho amarrado nos ombros, vai que vai. Voa!

Mas tem uma obrigação, só uminha. Você que é privilegiado tem a obrigação de reconhecer sua posição de privilegiado e fazer o que estiver ao seu alcance pra que esse privilégio se torne cada vez mais comum pra quem ainda não o tem. Fácil não?

E não vale se achar herói ou melhor que os outros por isso. Isso não pode. Também não pode não querer mudança nenhuma, principalmente sendo o lado privilegiado. Todo mundo quer o tênis foda, lembra disso. Talvez nem todos consigam, mas sua obrigação é tentar.

Já ia me esquecendo! Pode gostar de Chico Buarque e Los Hermanos, ok? Porra…. Jorge Vercillo? Tá bom, vai. Molejo? Pode e deve! Escuta o que você quiser, não tem problema. Você pode curtir a trilha sonora você quiser se estiver tentando reduzir contrastes sociais. Tá justo.

E o mais legal: você não precisa ser de esquerda pra querer isso tudo. Pode ser de direita. Não precisa usar azul ou vermelho. Pode ser preto, branco, arco-íris ou daltônico.

Esquerda festiva está mais que liberada! Pode usar carnaval, festa, música, arte e cultura de maneira geral como forma de construir uma sociedade mais inclusiva.

Ah! E não precisa ter vergonha de postar textão no Facebook. Ir pra rua é importante, mas usar rede social pra se expressar, gerar debate e se mobilizar não é se esconder atrás do monitor. A internet tem um poder do caralho, revoluções e primaveras já começaram e ganharam força por aqui. Vai nessa!

Já ia me esquecendo! A partir de hoje, ser a favor da meritocracia significa criar condições iguais pros desiguais. E não “se virem do jeito que tá aí e foda-se”. Se não não muuudaaaaa. (voz da Negra Li)

E pra fechar, anota aí. É mais recomendável um socialista do Leblon do que um preconceituoso de lá. Melhor um revolucionário de iPhone do que um reacionário. E pode, pode ser Galaxy."

Raphael Pavan - 03/10/2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Pêlos

Aproveitando o gancho da última publicação, de fato há cinco anos eu era bem idiota.

O mais interessante é que cinco anos serve bem direitinho para um momento em que minhas perspectivas de vida começaram a mudar consideravelmente: foi quando entrei na faculdade.

Meus dispositivos de mudança foram muitos: a própria faculdade em si, o projeto VER-SUS, meu amado Elos Coletivo, o programa PET-Saúde, o intercâmbio com Ciência sem Fronteiras, além de muitos acontecimentos em minha vida pessoal que serviram de substrato para muita reflexão.

Dentre as reflexões, gostaria de falar sobre minhas reflexões sobre pêlos.

Acreditam que quando eu ainda estava com meu ex-namorado eu incentivava ele a tirar a "monocelha", porque EU não gostava dela (sendo que a sobrancelha era dele e que portanto quem poderia ou não gostar dela era ele!)?!

Pois é, eu era idiota. De fato, tbm incomodava com a barba, mas não era por estética, mas pq arranhava mesmo, hahahaha...

E hoje?! Hoje penso um tanto diferente - após muitas oportunidades e muitos espaços de reflexão, dentre os quais o meu querido feminismo, ao qual sou muito grata por essa coisa linda ter entrado na minha vida!

Hoje questiono inclusive o fato de mulheres terem que se depilar! Há um vídeo ou texto, não recordo, que fala sobre o quão mutilante e traumatizante esse ato pode ser na vida de uma mulher, com o qual me identifiquei tanto que cheguei a compartilhá-lo duas vezes no facebook mesmo sem perceber que era a segunda vez, heheh... se eu encontrar, posto aqui!

Falando sobre pêlos com outras gurias, me chamou a atenção como há uma tendência natural de normalizarmos o machismo! Já pararam para pensar nisso?!

O diálogo foi algo assim:

"Acho péssimo termos que nos depilar! Se parar para pensar que uma depilação com cera de virilha muitas vezes chega a sangrar, não faz sentido nenhum sermos obrigadas a nos auto-torturarmos!"

Resposta imediata foi:

"Mas eu nem acho tão ruim me depilar! Acho até bem higiênico."

E a outra que veio na sequência foi:

"Ah, mas não é só mulher que se depila, também tem homens que se depilam..."

Enxergam a tendência de normalizar a questão!?

Gente, não estou falando que todas as mulheres não devem mais se depilar, nem estou falando que os homens não podem se depilar!

Estou falando que eu, como mulher vivendo na sociedade em que vivo, não tenho a OPÇÃO de não me depilar sem sofrer as represálias consequentes de não se seguir um padrão aceito!

És uma mulher e quer te depilar? Ótimo, seja feliz!

És um homem e quer te depilar? Ótimo, seja feliz! Caso tu não queira, sem problema tbm, tudo certo!

Mas eu como mulher não querer me depilar é sinônimo de relaxada, suja, nojenta...

Enfim... sei que estamos melhorando... aos poucos vai, tenho que crer que vai... mas enquanto isso vamos tentando derrubar todas as barreiras e convenções que pudermos - inclusive as nossas mesmas!

terça-feira, 20 de setembro de 2016

É preciso ver ao vivo - "Há 5 anos eu era bem idiota"

"HÁ 5 ANOS EU ERA BEM IDIOTA

Há cinco anos eu pensava que bolsa família era um exagero populista.

Achava que pegar remédio de graça no SUS era meio demais.

Achava que gay afeminado era semvergonhice.

Pensava que feminismo era o contrário de machismo.

Achava que lutar pela descriminalização do aborto era coisa de gente desalmada.

Achava que a legalização da maconha era algo absurdo e descabido. Coisa de vagabundo.

Achava que acabar com o financiamento privado e instituir o financiamento público de campanha era um desaforo para tirar mais dinheiro do povo.

Pensava que bandido preso tinha que sofrer mesmo, tinha que dormir no chão e comer mal. Quem mandou ser bandido?!

Sim, eu era essa pessoa vivendo nesse grau de mediocridade! Que vergonha! Mas, até eu tive salvação!

Há 5 anos reduzi drasticamente o tempo que dedicava a ver TV. Parei de levar em conta a opinião de gente que só se informava pela mídia hegemônica e busquei textos e reportagens de forma independente. Vi filmes que não passavam na sessão pipoca. Conversei com oprimidos: gays, lésbicas, negros, periféricos, analfabetos, mães solteiras...

Porém, penso que o que mais me transformou foi conhecer diretamente a realidade das pessoas mais pobres. Eu não queria saber de ouvir falar. Queria sentir o cheiro, pegar com as minhas mãos.

E lá fui eu, ser médica de família de pessoas que não tinham nada. Mesmo quando trabalhei em bairros de classe média, sempre, uma boa parte da população que eu atendia vivia em situação de pobreza, alguns tangenciando a miséria.

Foi transformador. Eu descobri que bolsa família servia pra comer. Vi mulheres pobres, abandonadas por seus homens escrotos, indo se submeter a abortos clandestinos em açougues de fundo de quintal enquanto eu ficava de cá rezando (naquela época eu ainda rezava). Vi mães pretas chorando a morte violenta de seus filhos pretos num tribunal sem direitos, sem advogado e sem juiz. Vi homens magros, judiados do sol de uma vida inteira, morrerem novos de tanto trabalhar. Vi crianças peladas, sentadas na terra da rua. Vi ruas de terra, carroças, cachorros e gatos em cima das mesas. Vi loucos, vi bêbados, vi feridos.

O que eu acho que falta para grande parte das pessoas no Brasil é ver. Não pelo jornal. Ver ao vivo. Por que é impossível ver e não se tocar. É impossível sentir o cheiro da miséria e dela não compadecer-se. A não ser que você seja um completo monstro.

Só um monstro seria capaz de querer tirar mais direitos dessas pessoas MISERÁVEIS. Só um monstro poderia pensar em reduzir ainda mais o acesso desses homens e mulheres ao sistema público de saúde. Só um monstro poderia pensar em fazer esses moribundos trabalharem mais uns anos de suas secas vidas.

Precisamos de um movimento. FORA, MONSTROS."

Julia Rocha - 18/09/2016

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A vida é tão rara

"Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma,
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma,
Eu sei, a vida não para,
A vida não para não..."


Lenine com sua voz aveludada, seu dedilhado certeiro.
Traz o arrepio na pele e o aconchego.
Traz lembranças de algumas das melhores experiências que já vivi no meu amado projeto VER-SUS.
Vem com elas a felicidade e a gratidão pelas alegrias vividas e pelos aprendizados adquiridos nesse projeto que me ajudou [e foi essencial!!!] na construção da visão de mundo que tenho hoje.
Mundo esse que vivo no dia a dia, que vivo nos desafios da faculdade, que vivo no medo da insegurança, que vivo no desespero da política, que vivo na certeza de que pode ficar melhor e de que tudo vai dar certo.
Palavras certas na hora certa para expressarem sentimentos e pensamentos do agora.


"...Calma, pera, vamo com um pouco mais de [c]alma! Eu tenho alma!..."

A vida é tão rara...

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Carta a um amigo

"Hoje abri o DA sozinha pela primeira vez. Foi impossível entrar e não lembrar de ti em casa centímetro desse lugar que foi tua segunda casa. Ainda mais por pensar que, se estou aqui abrindo esse diretório, é pq tu foi a pessoa que abriu as portas dessa gestão para mim. Logo que entrei, fui ligando as luzes e lembrando de momentos em que tive o prazer de passar contigo, como no primeiro dia em que eu estava de volta da viagem e tu estava com teu computador (como sempre) organizando arquivos e me ofereceu materiais de estudo. Ou quando vi o cartaz de interditado e lembrei da cena de tu desentupindo o vaso sanitário masculino no dia de limpeza que fizemos aqui no DA. Ou do dia em que estávamos chegando no DA e tu me contava de quando fui tua monitora de genética e te ensinei a transcrição pq por algum motivo tu tinha perdido as aulas (e eu não lembrava que tu era tu!!!). Ou do dia em que eu estava lavando a louça e tu me contava que te espantava o fato de as pessoas não gostarem de estudar mesmo estando na faculdade que elas tanto estudaram para entrar. São tantas lembranças boas.

Meu querido amigo, nossa amizade pode de fato ter sido breve, mas tenho certeza que foi o tempo suficiente para eu ter uma amostra grátis de como tu era excelente em tudo.

Nesse fim de semana fui numa festa. Numa festa de sertanejo. Foi impossível não lembrar de ti. Lembrar de tu me contando o quanto gostava de dançar ou do dia que nos contava/ imitava como teus pais dançavam em dia de festa de família.

Sei que infelizmente talvez não tenhamos tido tempo suficiente para eu conhecer mais das tuas histórias, inclusive as do exército que agora tenho ouvido tanto através dos outros. Mas se há algo que jamais esquecerei será do dia em que estávamos saindo da biblioteca, eu, tu e o Andrio, depois de estudar valvulopatias entremeado por ótimas histórias (do intermed inclusive, quando fizemos planos sobre a possibilidade de irmos juntos e tive a certeza de que tinha um parceiro de festas ali tbm). Dentre as histórias, teve tbm muitas imitações, em sua grande maioria todas do Andrio; ri até doer os carrinhos. Nós três caminhando pelo corredor do segundo andar em direção à escada e eu disse: "Ai, já me sinto super amiga de vcs dois e não tem jeito! Agora não vejo a hora de ter intimidade o suficiente com vcs para tu tbm saber me imitar, Furlan!". E tu me respondeu: "E tu acha que eu não sei? Claro que sei!". Minha alegria foi imensa e obvia e instantaneamente pedi para que tu me imitasse. A minha expressão clássica escolhida foi a que uso em momentos de espanto/ surpresa: "mas como assim?!?!". Com a minha careta e os movimentos que faço com as mãos acompanhando as palavras. Ri tanto. E lembro exatamente daquele teu sorriso tão teu. Aquele que tu fazia meio que tampando a boca e encolhendo os ombros, que usava quando sabia que teoricamente talvez não devesse rir de tal situação (minhas caretas no caso). Uma risada tão gostosa e espontânea que contagiava qualquer um que estivesse ao teu redor. Aquela manhã de estudos estará para sempre guardada no meu coração.

Ai a saudade. Já foi muito difícil, quase insuportável. Está sendo e ainda será. Mas aos poucos o senhor de tudo, o tempo, nos ajuda a lidar com essa dor que às vezes vem e parece não sair mais.

Prometo continuar fazendo tudo que estiver ao meu alcance para honra nossa amizade. Continuarei colocando tua amada família em minhas orações, sendo um carrapatinho na vida do Andrio e fazendo de tudo para ser tua discípula na vida acadêmica, profissional e moral!

Com todo meu carinho, Bi."


Texto escrito em 04 de janeiro de 2016 às 8h56min no DAGP.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Retomando os trabalhos, digo, os prazeres

Remexendo nos meus arquivos do Drive, me surpreendi com um documento de junho de 2014 com brainstorm de ideias para título do meu blog e uma lista de temas para eu abordar nele:

"Itens:
- Csf
- NHS
- Saúde Pública
- Medicina
- Atingir Sonhos
- Sonho nos inspira
- Só se vive se se tem um sonho
- Inglaterra
- Terra da rainha
- Imagine - John Lennon
- Persistência 
- Não desistir de sonhos
- Pensar diferente
- Movida pela paixão
- Plantei. hoje sou o sonho que carREGO.
- Caminho
- Construção"

Adorei ter encontrado esse arquivo! Além de trazer temas liiindos, através dele, de certa forma, tenho o aval de mim mesma (!?!?! hahaha) para escrever sobre outros assuntos que não apenas as experiências que vivi no intercâmbio.

Não sei entender ao certo ainda porque tenho certos hábitos... Mas sei que um deles é o de criar regras, padrões, organizações para tudo que faço e, quando não o faço... Cai a casa... Eis que com o blog foi a mesma coisa! Mesmo sem querer, acabei criando padrões de publicações sendo todas elas sobre o intercâmbio. Além disso, acabava me cobrando regularidade nas postagens e, ao invés de escrever sobre sentimentos e sensações, me perdia escrevendo apenas de forma objetiva e descritiva (não que isso seja ruim, porque diversas postagens ficaram muito legais, mas o problema é que não deixava de ser uma forma de eu podar a mim mesma...).

Pois bem, mas acontece que fico feliz ao perceber que mudei - e continuo tentando mudar - inclusive com relação a isso! Inspirada nas publicações da minha amiga Mayara Floss sobre diversos temas, mas principalmente sobre o nosso curso de graduação em comum, comecei a sentir a necessidade de registrar essas vivências e sinto que aqui seja o lugar perfeito! 

Vou sim quebrar o padrão de postagens da Inglaterra, o de ser textos com imagens, o de ter regularidade, o de ter obrigações. Decido que a partir de agora estou "retomando os prazeres", retomando esse blog, mas dessa vez publicando quando der sobre o que eu quiser :)

Inclusive os temas da lista! Hehehe...