Registros de uma guria que acredita que sim os nossos sonhos são sem fronteiras!!!
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
O SUS não é eficiente comparado a quê? Em quantos países há algo semelhante que atenda toda a população?
Não é eficiente por que há filas de espera? Na iniciativa privada fila é sinônimo de sucesso!
Não é eficiente por que não consegue atender 170 milhões de pessoas com a mesma qualidade e presteza com que este ou aquele hospital particular atendem mil pessoas?
Comparado a quê o SUS é ineficiente? Se houvesse mais funcionários que pacientes diriam que há desperdício de verba e também seria tachado de ineficiente. Se houvesse sempre um médico disponível quando se precisa de atendimento diriam que é cabide de emprego e que não há serviço.
Não é eficiente comparado com o Albert Einsten?
Sim, há muito que melhorar no SUS, mas dizer que não é eficiente não ajuda a melhorar nada, não aponta defeitos nem caminhos possíveis. Morrem pessoas no Albert Einsten também!
A maioria dos países não possui nada parecido ao SUS, como é o caso dos EUA. Lá eles acreditam que a iniciativa privada é mais eficiente. Lá 50 milhões de pessoas não podem ir ao médico, fazer um curativo sequer, porque não possuem plano de saúde privado. Dos 150 milhões que pagam planos de saúde, aqueles que descobrem que estão com câncer descobrem também que o plano não cobre. Aqueles que tiverem infarto e precisarem de exames periódicos descobrirão que há taxas para cada exame. Doenças são a maior causa de falências nos EUA. Famílias vão morar na rua depois de vender tudo que têm para pagar tratamentos médicos.
Muitos dos nossos deputados foram financiados por planos de saúde privados, e há quem ache que aqui seria melhor com estado mínimo, com educação privada, saúde privada, transporte privado e segurança privada. Tudo padrão FIFA, padrão Albert Einsten, para quem puder pagar, claro.
O SUS não é perfeito, nem o ALbert Einsten. Os usuários do Albert Einsten eventualmente se queixam e até processam o hospital. Mas são poucos, e ninguém quer fazer propaganda contra, afinal, não prejudica os interesses de ninguém. Diferentemente do SUS, que prejudica os interesses da máfia dos planos de saúde.
Não conheço nada que não possa ser mais eficiente do que é. Mas te garanto, sem nenhuma dúvida, que o SUS, com sua ineficiência, é responsável por salvar e melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas que não teriam outra opção de atendimento médico. Algumas vidas são perdidas também, alguns morrem na fila, esperando atendimento. Se não tivesse SUS TODOS MORRERIAM ESPERANDO ATENDIMENTO.
Criticar o SUS pontualmente apontando caminhos e soluções seria algo justo e inteligente. Criticar o SUS de modo generalizante amplificando o senso-comum e o discurso do estado mínimo é muito estúpido!
da série 'comentários reciclados'...
sábado, 12 de agosto de 2017
terça-feira, 8 de agosto de 2017
Higiene ou estética?
"Para refletir...
Sabonetes íntimos de frutas.
Perfumes íntimos de flores.
Maquiagem para a região íntima.
Cirurgias de simetrização da região íntima para meninas ainda virgens.
Depilação a laser, cera quente, fio...
A sociedade não espera que sejamos mulheres, com características de mulheres adultas, mas bonecas infláveis ou ideais de consumo pornográficos.
E ainda há os que alegam higiene... Higiene é muito diferente de estetização. Que higiene é essa que só atinge em massa o público feminino?
O mesmo país que lidera o ranking de meninas virgens fazendo cirurgia de estetização da vagina é o mesmo país que precisa governamentalmente fazer campanha para incentivar os machos a lavarem o pinto por conta da falta de higiene íntima que causa mais de 1000 despirocações por ano."
Sabonetes íntimos de frutas.
Perfumes íntimos de flores.
Maquiagem para a região íntima.
Cirurgias de simetrização da região íntima para meninas ainda virgens.
Depilação a laser, cera quente, fio...
A sociedade não espera que sejamos mulheres, com características de mulheres adultas, mas bonecas infláveis ou ideais de consumo pornográficos.
E ainda há os que alegam higiene... Higiene é muito diferente de estetização. Que higiene é essa que só atinge em massa o público feminino?
O mesmo país que lidera o ranking de meninas virgens fazendo cirurgia de estetização da vagina é o mesmo país que precisa governamentalmente fazer campanha para incentivar os machos a lavarem o pinto por conta da falta de higiene íntima que causa mais de 1000 despirocações por ano."
Lizandra Souza
terça-feira, 1 de agosto de 2017
O melhor plano de saúde
Lá vem textão porque sim:
Pensem comigo... Vivemos numa sociedade capitalista, certo? Basicamente tudo que acontece ao nosso redor gira em torno do lucro:
Desde um outdoor com "promoções" de roupas e sapatos no caminho do trabalho, até um comercial que ouvimos no aplicativo de música no meio da playlist grátis que te "oferece" plano para assiná-lo, por exemplo.
Certo, há muitas vantagens nisso, concordo, temos liberdade de escolha, cada um compra o que quer. E desvantagens, mas não vou entrar nesse quesito agora. Ok até aí...
O nosso Sistema Único de Saúde não visa ao lucro! Olha que loucura! Temos um âmbito da sociedade que gira uma quantidade incrível de dinheiro que NÃO visa lucro! Qual vai ser o mais-valia desse giro todo de capital?! Ninguém! Mas então quem que vai ganhar com a saúde?! O povo, a população, o bem geral, QUALQUER pessoa que necessite, pois o SUS é UNIVERSAL, TODO cidadão brasileiro tem direito a ele!
Sinistro, né? Mas tem mais: ele é um mercado sem fim! Assim como aprendi numa das aulas de Saúde Pública que tive durante o intercâmbio, a saúde é um mercado com demanda infinita e recursos finitos. Ou seja, sempre haverá pessoas que podem adoecer, não há como prever quem ou quando; mas sempre haverá um número x de recursos, humanos ou financeiros, por exemplo, limitado, finito.
Pensa só: demanda infinita! Imagina tu ter um comércio com demanda infinita?
Certo, estamos juntos até aí?! Ok.
Agora pensemos na mídia. Ela também visa lucros, correto? Ok, então com o que que a mídia vai lucrar mais? Incentivando o SUS ou contribuindo para seu desmonte - e, assim, oportunizando a privatização da saúde e ganhando clientes (como convênios privados) que são potenciais investidores e patrocinadores do seu negócio?
Confesso que estou surpresa com a série SOS SUS sobre a qual fiz uma postagem aqui no facebook esses dias. Essa série, que traz reportagens sobre o SUS que dá certo, está passando na Globo - atual mídia hegemônica que não ganharia NADA com esse serviço à sociedade. Mas enfim, permaneço com meus dois pés atrás, mas feliz de ver essa divulgação.
Ao mesmo tempo, temos outro seriado chamado Sob Pressão que está passando no mesmo canal. Um seriado ficcional que está retratando de forma escrachada a falta de recursos do SUS, através da utilização de uma caixa de papelão como berço de um neonatal, por exemplo.
O primeiro programa dura 15 minutos e aparece dentro de outro chamado Como Será que passa nos sábados às 7h.
O segundo dura 50 minutos e passa em horário nobre às 23h das terças-feiras.
O que refletir a partir disso?
Deixo para cada um chegar às suas conclusões.
Por fim, ressalto: o desmonte do SUS é interesse de muitos - quem sabe até de nosso ministro da saúde, engenheiro civil e empresário, que tem forte relação $$$ com a Unimed...
Mas o SUS, ah o SUS, ele é interesse de TODOS! Lutemos por ele! Baseado no NHS (National Health System - sistema de saúde pública da Inglaterra), que conheci de pertinho, ele tem sim potencial e é exemplo para muitos países. Um baby de menos de 30 anos quando comparado ao NHS que já tem quase 80. Vem comigo, vamos ajudá-lo a aprender a caminhar?!
Pensem comigo... Vivemos numa sociedade capitalista, certo? Basicamente tudo que acontece ao nosso redor gira em torno do lucro:
Desde um outdoor com "promoções" de roupas e sapatos no caminho do trabalho, até um comercial que ouvimos no aplicativo de música no meio da playlist grátis que te "oferece" plano para assiná-lo, por exemplo.
Certo, há muitas vantagens nisso, concordo, temos liberdade de escolha, cada um compra o que quer. E desvantagens, mas não vou entrar nesse quesito agora. Ok até aí...
O nosso Sistema Único de Saúde não visa ao lucro! Olha que loucura! Temos um âmbito da sociedade que gira uma quantidade incrível de dinheiro que NÃO visa lucro! Qual vai ser o mais-valia desse giro todo de capital?! Ninguém! Mas então quem que vai ganhar com a saúde?! O povo, a população, o bem geral, QUALQUER pessoa que necessite, pois o SUS é UNIVERSAL, TODO cidadão brasileiro tem direito a ele!
Sinistro, né? Mas tem mais: ele é um mercado sem fim! Assim como aprendi numa das aulas de Saúde Pública que tive durante o intercâmbio, a saúde é um mercado com demanda infinita e recursos finitos. Ou seja, sempre haverá pessoas que podem adoecer, não há como prever quem ou quando; mas sempre haverá um número x de recursos, humanos ou financeiros, por exemplo, limitado, finito.
Pensa só: demanda infinita! Imagina tu ter um comércio com demanda infinita?
Certo, estamos juntos até aí?! Ok.
Agora pensemos na mídia. Ela também visa lucros, correto? Ok, então com o que que a mídia vai lucrar mais? Incentivando o SUS ou contribuindo para seu desmonte - e, assim, oportunizando a privatização da saúde e ganhando clientes (como convênios privados) que são potenciais investidores e patrocinadores do seu negócio?
Confesso que estou surpresa com a série SOS SUS sobre a qual fiz uma postagem aqui no facebook esses dias. Essa série, que traz reportagens sobre o SUS que dá certo, está passando na Globo - atual mídia hegemônica que não ganharia NADA com esse serviço à sociedade. Mas enfim, permaneço com meus dois pés atrás, mas feliz de ver essa divulgação.
Ao mesmo tempo, temos outro seriado chamado Sob Pressão que está passando no mesmo canal. Um seriado ficcional que está retratando de forma escrachada a falta de recursos do SUS, através da utilização de uma caixa de papelão como berço de um neonatal, por exemplo.
O primeiro programa dura 15 minutos e aparece dentro de outro chamado Como Será que passa nos sábados às 7h.
O segundo dura 50 minutos e passa em horário nobre às 23h das terças-feiras.
O que refletir a partir disso?
Deixo para cada um chegar às suas conclusões.
Por fim, ressalto: o desmonte do SUS é interesse de muitos - quem sabe até de nosso ministro da saúde, engenheiro civil e empresário, que tem forte relação $$$ com a Unimed...
Mas o SUS, ah o SUS, ele é interesse de TODOS! Lutemos por ele! Baseado no NHS (National Health System - sistema de saúde pública da Inglaterra), que conheci de pertinho, ele tem sim potencial e é exemplo para muitos países. Um baby de menos de 30 anos quando comparado ao NHS que já tem quase 80. Vem comigo, vamos ajudá-lo a aprender a caminhar?!
Coragem
Vivências de um estágio...
1. Já havia sido avisada de que provavelmente perguntariam a especialidade que almejo e que, sendo MFC a resposta, viria bomba pela frente. Dito e feito. A pergunta veio, engasguei, pensei, respondi baixinho: medicina de família. "Mas o que que está acontecendo que tá todo mundo querendo isso agora? Mas por que que tu quer fazer isso?", "Porque eu amo!" foi tudo o que eu consegui responder no momento.
Em outra situação com a mesma pessoa, fui questionada genuinamente "Tá, mas me explica, tu não fica mal de saber que tu vai fazer uma residência para trabalhar no mesmo local que outros médicos sem especialidade trabalham?". Confesso que a pergunta me pegou em cheio e eu nunca tinha pensado nesse ponto de vista. Orgulho! Esse fato fere nosso orgulho! Eu ficava de cara de pensar que médicos sem especialidade fazem merdas e ferem a fama do médico de família, fazendo com que ele seja mal visto. Mas nunca tinha pensado no lado do orgulho. Pensei. "Não! Eu considero errado ser permitido que eles trabalhem no nosso campo, no nosso 'mercado', por não considerar que eles sejam preparados para isso. Mas também entendo que não temos médicos de família suficientes para o número necessário. Mas não me incomoda pensar que 'estarei no mesmo nível que eles'." A partir disso, se desenvolveu um diálogo muito legal. Falou-se de medicina de família, de SUS, de saúde pública, de classes sociais, de origem familiar... Não necessariamente concordou-se com tudo, mas os lados foram ouvidos e compreendidos. Confesso que me surpreendi ao perceber que tínhamos a "mesma origem" e ainda assim ela não pensava como eu. Mas tudo bem, somos livres para pensar diferentemente. Confesso também que, por pensarmos diferente, me surpreendi quando fui tratada com respeito. Até recebi oferta de carona. Tive a oportunidade de rever mais um pré-conceito e aguçar minha integralidade para perceber que o ser humano como um todo é sim composto de qualidades e defeitos, sem que um inviabilize o outro.
No dia seguinte, mais uma surpresa gostosa: "Quase te mandei uma mensagem ontem... Fiquei pensando muito em tudo que conversamos, foi muito legal. Obrigada pela conversa!". Que sensação maravilhosa. Por saber que uma pessoa supostamente acima de mim na hierarquia gostou de conversar comigo, por saber que ela ficou pensando no que conversamos, por saber que consegui fazê-la ter pontos de vista diferentes do que ela está acostumada, por saber que deixei minha marca.
2. Estávamos no bar eu, dois residentes e um acadêmico. Uma mulher e três homens, invariavelmente um local hostil - assim como toda neurocirurgia dominada por "machos alfa".
"Reparei que nos prontuários do ambulatório consta a assinatura de um R2 que não está por aqui e ouvi falar que ele largou a residência. É verdade isso?"
"Sim!"
"Bah, que tenso... Mas chegaram a ficar sabendo se aconteceu alguma coisa, por que que ele teria largado?"
"Ele resolveu virar homossexual!"
"Oi?!?!?!?"
"Ah, resolveu roçar a barba em outras barbas..."
E os demais deram uma risadinha de leve, afinal de contas foi "apenas mais uma piadinha como tantas outras que ocorrem no bloco cirúrgico". Mas eu não pudia acreditar que mais uma vez eu estava presenciando algo tão "normalizado", que não é normal, mas sim infelizmente comum. Não pude não pensar instantaneamente em meus amigos gays e em todo sofrimento que vivem no dia a dia por conta dessa sociedade deturpada. Ou nos gays que, por mais que não tão próximos alguns, mas conhecidos, somam três que já tiveram seus narizes quebrados por estarem em festas beijando outro homem. Mantive a serenidade, não esbocei um sorriso sequer, pois de fato não havia absolutamente graça nenhuma no que havia sido dito. Não sei como, não sei de onde, mas me veio uma resposta na mente na mesma hora. Foi rápido demais, mas sei que pelo menos inconscientemente eu pensei: "E agora? Respondo ou não? O que vão pensar de mim? Será que não vão mais gostar de mim se eu responder?". Mesmo assim, não hesitei:
"Era para ser engraçado?"
Com minha visão periférica, percebi que os outros dois recolheram seus sorrisos, levantaram suas cabeças e olharam constrangidos para o que havia feito a "gracinha".
"Era... Mas se não foi, tudo bem também... Ele queria ir para a Suécia, foi isso... Ele percebeu que aqui estaria perdendo tempo..."
"Hmm, Suécia, que legal..."
Mais uma vez mantive a serenidade e segui o assunto para não dar flashes ao acontecido. Logo após isso, me senti constrangida, como se "tivesse forçado a barra" ou "sido a chata politicamente correta do rolê". Azar. Sou mesmo. E percebi que fiz todos refletirem sobre a suposta piada. Posso ter sido aparentemente inconveniente, mas sei que fui na verdade um meio de trazer uma oportunidade de reflexão. Assim, logo em seguida, o constrangimento se tornou orgulho. Fiquei orgulhosa e muito por ter tido a ideia de resposta e a coragem de me colocar mesmo num ambiente hostil. Orgulhosa por mim. Por meus amigos. Por todos gays.
A conversa continuou, seguiu. E sim o clima ficou normal.
3. Logo após esse momento, havia uma reunião. Uma reunião sabidamente desorganizada, sem ordem de fala, repleta de homens e pessoas supostamente acima de mim na hierarquia insana da medicina.
Eu tinha dois casos de pacientes para discutir - e precisava discuti-los, pois era minha última semana no estágio.
Mais um ambiente hostil, sem espaço de fala para os próprios "donos" do espaço... Quiçá para uma doutorandA.
Pois bem. Tarefa dada, tarefa cumprida. Preciso ser ouvida. Mais uma vez, não sei bem como, não sei bem de onde, me veio coragem e desenvoltura para lutar e conseguir meu espaço de fala. Discuti os meus dois casos e ainda consegui espaço para o acadêmico discutir o seu caso, pois sabia que ele era tímido e no "menor nível hierárquico" do lugar - me senti na obrigação de fazer isso por ele, pois é o que eu gostaria que tivessem feito por mim.
Resultados: fui confundida com uma nova residente da neurocx (sim, fiquei bem feliz de ter um desempenho considerado suficiente para um "nível hierárquico maior") e elogiada através de uma brincadeira do tipo "olha essa doutoranda aí, metendo a moral e colocando os residentes no chinelo".
Moral da história: mesmo eu podendo ter sido considerada teoricamente a "chata politicamente correta inconveniente", isso não me impediu de mostrar minha competência e nem de ser reconhecida por isso. Ou seja, valeu a pena ter coragem. Sempre valerá. Que eu continue assim!
4. Última cirurgia do estágio, primeira de coluna, primeira com aquele preceptor. Diferentemente das de crânio (em que os cirurgiões ficam sentados e consigo ver a cirurgia de longe), nessa cirurgia eu não conseguia enxergar absolutamente nada de longe. Para chegar perto, teria que me paramentar e entrar em campo. Mas não me ofereceram em nenhum momento. Mas eu não fazia ideia de como eu poderia ser útil. Mas já tinha quatro pessoas em campo.
Mas eu queria enxergar.
Mais uma vez, nem como nem de onde: "Professor.." "Uhmm.." "Posso entrar em campo?" [pausa dramática...] "Pode!"
Feito!!! Conseguiria chegar perto e enxergar o que estava sendo feito na cirurgia. Quem sabe de quebra até me deixariam fechar a pele, porque né, a esperança é a última que morre, hehehe...
Entrei em campo, passei a enxergar. Estava feliz, driblei o sono. Fazia tudo que me parecia ser possivelmente útil e que pudesse ajudá-los.
Enxerguei algo estranho. Parecia uma gaze. Mas estava tão vermelho... Perguntei: "Pessoal, aquilo ali é uma gaze, né?" Estavam conversando e ninguém me respondeu... Olhei para a instrumentadora e vi que não havia nenhum mosquitinho marcando... Será que não era? Não, mas eu acho que é... "Oi, fulana, com licença, tu pode marcar aí com mosquitinho, porque vi que tem uma gaze dentro da paciente..." "Claro sem problemas..."
Cirurgia difícil. Paciente sendo reintervida pela quarta vez, fibrose e mais fibrose. Instrumentos inadequados, tesouras sem fio, afastadores estragados. Aos trancos e barrancos, ela foi finalizada. Terminaram o que tinha que ser feito.
"Deu, já tá bom... Não tem mais nada aí, né? Já tiramos os algodões e tudo mais, né?"
Sim, responderam os residentes se preparando para fechar a FO.
"Não, mas a mocinha aqui disse que tem gaze lá ainda!" - disse a técnica.
"O quê? Mas onde?"
Pensei "Bah, será que eu que tô viajando e atrasando a finalização da cirurgia? Será que não é gaze? Será que é só o tecido da paciente?"
"Ali ó..."
O preceptor puxou com a pinça... Saiu uma gaze. Puxou de novo... Saiu outra. E de novo... Outra! Todos ficaram em choque na sala de cirurgia.
"Parabéns, nota dez no estágio para ti, excelente!" - disse o preceptor.
"Bah, mandou muito bem, salvou a paciente" - disse um dos Rs.
Na hora, confesso que senti um alívio por serem gazes, pois eu não estaria viajando. Não sei, parece que não tinha me caído a ficha do que significava aquilo... Foi um tanto assustador pensar que ninguém tinha visto, mas fiquei muito feliz de saber que pude ajudar aquela paciente - até quiçá salvá-la.
Precep "Olha, pode ser cirurgiã, hein? Ainda mais neurocirurgiã, porque tem que estar ligada mesmo!"
R "Pena que ela não quer cirurgia, né?"
P "Ah, é? O que ela quer?"
R "Medicina de família..."
P "Ah, não... Na medicina de família não precisa ser assim, deixar uma gazezinha não faz diferença..."
Eu "Ah, não?!?! Medicina de família não é medicina então?"
R "Calma, ninguém quer ofender aqui não... É só que tinha tanto potencial..."
E "Tu vê né... Eu tenho tanto potencial que posso até escolher o que eu quero, coisa boa né?"
R "É, pois é, mas né, podia aproveitar mais..."
E "Calma, não te preocupa, fica tranquilo e aproveita que assim tu não vai ter que te preocupar em concorrer no mercado comigo..."
Até o precep sisudo não se aguentou e riu. Nem eu acreditei que aquele tanto de resposta estava saindo da ponta da minha língua! Hahaha... Foram muitas alfinetadas e de todos os lados, mas as relações já estavam estabelecidas e todas foram levadas muito no bom humor.
"Parabéns, tu foi uma das melhores doutorandas dos últimos tempos!"
1. Já havia sido avisada de que provavelmente perguntariam a especialidade que almejo e que, sendo MFC a resposta, viria bomba pela frente. Dito e feito. A pergunta veio, engasguei, pensei, respondi baixinho: medicina de família. "Mas o que que está acontecendo que tá todo mundo querendo isso agora? Mas por que que tu quer fazer isso?", "Porque eu amo!" foi tudo o que eu consegui responder no momento.
Em outra situação com a mesma pessoa, fui questionada genuinamente "Tá, mas me explica, tu não fica mal de saber que tu vai fazer uma residência para trabalhar no mesmo local que outros médicos sem especialidade trabalham?". Confesso que a pergunta me pegou em cheio e eu nunca tinha pensado nesse ponto de vista. Orgulho! Esse fato fere nosso orgulho! Eu ficava de cara de pensar que médicos sem especialidade fazem merdas e ferem a fama do médico de família, fazendo com que ele seja mal visto. Mas nunca tinha pensado no lado do orgulho. Pensei. "Não! Eu considero errado ser permitido que eles trabalhem no nosso campo, no nosso 'mercado', por não considerar que eles sejam preparados para isso. Mas também entendo que não temos médicos de família suficientes para o número necessário. Mas não me incomoda pensar que 'estarei no mesmo nível que eles'." A partir disso, se desenvolveu um diálogo muito legal. Falou-se de medicina de família, de SUS, de saúde pública, de classes sociais, de origem familiar... Não necessariamente concordou-se com tudo, mas os lados foram ouvidos e compreendidos. Confesso que me surpreendi ao perceber que tínhamos a "mesma origem" e ainda assim ela não pensava como eu. Mas tudo bem, somos livres para pensar diferentemente. Confesso também que, por pensarmos diferente, me surpreendi quando fui tratada com respeito. Até recebi oferta de carona. Tive a oportunidade de rever mais um pré-conceito e aguçar minha integralidade para perceber que o ser humano como um todo é sim composto de qualidades e defeitos, sem que um inviabilize o outro.
No dia seguinte, mais uma surpresa gostosa: "Quase te mandei uma mensagem ontem... Fiquei pensando muito em tudo que conversamos, foi muito legal. Obrigada pela conversa!". Que sensação maravilhosa. Por saber que uma pessoa supostamente acima de mim na hierarquia gostou de conversar comigo, por saber que ela ficou pensando no que conversamos, por saber que consegui fazê-la ter pontos de vista diferentes do que ela está acostumada, por saber que deixei minha marca.
2. Estávamos no bar eu, dois residentes e um acadêmico. Uma mulher e três homens, invariavelmente um local hostil - assim como toda neurocirurgia dominada por "machos alfa".
"Reparei que nos prontuários do ambulatório consta a assinatura de um R2 que não está por aqui e ouvi falar que ele largou a residência. É verdade isso?"
"Sim!"
"Bah, que tenso... Mas chegaram a ficar sabendo se aconteceu alguma coisa, por que que ele teria largado?"
"Ele resolveu virar homossexual!"
"Oi?!?!?!?"
"Ah, resolveu roçar a barba em outras barbas..."
E os demais deram uma risadinha de leve, afinal de contas foi "apenas mais uma piadinha como tantas outras que ocorrem no bloco cirúrgico". Mas eu não pudia acreditar que mais uma vez eu estava presenciando algo tão "normalizado", que não é normal, mas sim infelizmente comum. Não pude não pensar instantaneamente em meus amigos gays e em todo sofrimento que vivem no dia a dia por conta dessa sociedade deturpada. Ou nos gays que, por mais que não tão próximos alguns, mas conhecidos, somam três que já tiveram seus narizes quebrados por estarem em festas beijando outro homem. Mantive a serenidade, não esbocei um sorriso sequer, pois de fato não havia absolutamente graça nenhuma no que havia sido dito. Não sei como, não sei de onde, mas me veio uma resposta na mente na mesma hora. Foi rápido demais, mas sei que pelo menos inconscientemente eu pensei: "E agora? Respondo ou não? O que vão pensar de mim? Será que não vão mais gostar de mim se eu responder?". Mesmo assim, não hesitei:
"Era para ser engraçado?"
Com minha visão periférica, percebi que os outros dois recolheram seus sorrisos, levantaram suas cabeças e olharam constrangidos para o que havia feito a "gracinha".
"Era... Mas se não foi, tudo bem também... Ele queria ir para a Suécia, foi isso... Ele percebeu que aqui estaria perdendo tempo..."
"Hmm, Suécia, que legal..."
Mais uma vez mantive a serenidade e segui o assunto para não dar flashes ao acontecido. Logo após isso, me senti constrangida, como se "tivesse forçado a barra" ou "sido a chata politicamente correta do rolê". Azar. Sou mesmo. E percebi que fiz todos refletirem sobre a suposta piada. Posso ter sido aparentemente inconveniente, mas sei que fui na verdade um meio de trazer uma oportunidade de reflexão. Assim, logo em seguida, o constrangimento se tornou orgulho. Fiquei orgulhosa e muito por ter tido a ideia de resposta e a coragem de me colocar mesmo num ambiente hostil. Orgulhosa por mim. Por meus amigos. Por todos gays.
A conversa continuou, seguiu. E sim o clima ficou normal.
3. Logo após esse momento, havia uma reunião. Uma reunião sabidamente desorganizada, sem ordem de fala, repleta de homens e pessoas supostamente acima de mim na hierarquia insana da medicina.
Eu tinha dois casos de pacientes para discutir - e precisava discuti-los, pois era minha última semana no estágio.
Mais um ambiente hostil, sem espaço de fala para os próprios "donos" do espaço... Quiçá para uma doutorandA.
Pois bem. Tarefa dada, tarefa cumprida. Preciso ser ouvida. Mais uma vez, não sei bem como, não sei bem de onde, me veio coragem e desenvoltura para lutar e conseguir meu espaço de fala. Discuti os meus dois casos e ainda consegui espaço para o acadêmico discutir o seu caso, pois sabia que ele era tímido e no "menor nível hierárquico" do lugar - me senti na obrigação de fazer isso por ele, pois é o que eu gostaria que tivessem feito por mim.
Resultados: fui confundida com uma nova residente da neurocx (sim, fiquei bem feliz de ter um desempenho considerado suficiente para um "nível hierárquico maior") e elogiada através de uma brincadeira do tipo "olha essa doutoranda aí, metendo a moral e colocando os residentes no chinelo".
Moral da história: mesmo eu podendo ter sido considerada teoricamente a "chata politicamente correta inconveniente", isso não me impediu de mostrar minha competência e nem de ser reconhecida por isso. Ou seja, valeu a pena ter coragem. Sempre valerá. Que eu continue assim!
4. Última cirurgia do estágio, primeira de coluna, primeira com aquele preceptor. Diferentemente das de crânio (em que os cirurgiões ficam sentados e consigo ver a cirurgia de longe), nessa cirurgia eu não conseguia enxergar absolutamente nada de longe. Para chegar perto, teria que me paramentar e entrar em campo. Mas não me ofereceram em nenhum momento. Mas eu não fazia ideia de como eu poderia ser útil. Mas já tinha quatro pessoas em campo.
Mas eu queria enxergar.
Mais uma vez, nem como nem de onde: "Professor.." "Uhmm.." "Posso entrar em campo?" [pausa dramática...] "Pode!"
Feito!!! Conseguiria chegar perto e enxergar o que estava sendo feito na cirurgia. Quem sabe de quebra até me deixariam fechar a pele, porque né, a esperança é a última que morre, hehehe...
Entrei em campo, passei a enxergar. Estava feliz, driblei o sono. Fazia tudo que me parecia ser possivelmente útil e que pudesse ajudá-los.
Enxerguei algo estranho. Parecia uma gaze. Mas estava tão vermelho... Perguntei: "Pessoal, aquilo ali é uma gaze, né?" Estavam conversando e ninguém me respondeu... Olhei para a instrumentadora e vi que não havia nenhum mosquitinho marcando... Será que não era? Não, mas eu acho que é... "Oi, fulana, com licença, tu pode marcar aí com mosquitinho, porque vi que tem uma gaze dentro da paciente..." "Claro sem problemas..."
Cirurgia difícil. Paciente sendo reintervida pela quarta vez, fibrose e mais fibrose. Instrumentos inadequados, tesouras sem fio, afastadores estragados. Aos trancos e barrancos, ela foi finalizada. Terminaram o que tinha que ser feito.
"Deu, já tá bom... Não tem mais nada aí, né? Já tiramos os algodões e tudo mais, né?"
Sim, responderam os residentes se preparando para fechar a FO.
"Não, mas a mocinha aqui disse que tem gaze lá ainda!" - disse a técnica.
"O quê? Mas onde?"
Pensei "Bah, será que eu que tô viajando e atrasando a finalização da cirurgia? Será que não é gaze? Será que é só o tecido da paciente?"
"Ali ó..."
O preceptor puxou com a pinça... Saiu uma gaze. Puxou de novo... Saiu outra. E de novo... Outra! Todos ficaram em choque na sala de cirurgia.
"Parabéns, nota dez no estágio para ti, excelente!" - disse o preceptor.
"Bah, mandou muito bem, salvou a paciente" - disse um dos Rs.
Na hora, confesso que senti um alívio por serem gazes, pois eu não estaria viajando. Não sei, parece que não tinha me caído a ficha do que significava aquilo... Foi um tanto assustador pensar que ninguém tinha visto, mas fiquei muito feliz de saber que pude ajudar aquela paciente - até quiçá salvá-la.
Precep "Olha, pode ser cirurgiã, hein? Ainda mais neurocirurgiã, porque tem que estar ligada mesmo!"
R "Pena que ela não quer cirurgia, né?"
P "Ah, é? O que ela quer?"
R "Medicina de família..."
P "Ah, não... Na medicina de família não precisa ser assim, deixar uma gazezinha não faz diferença..."
Eu "Ah, não?!?! Medicina de família não é medicina então?"
R "Calma, ninguém quer ofender aqui não... É só que tinha tanto potencial..."
E "Tu vê né... Eu tenho tanto potencial que posso até escolher o que eu quero, coisa boa né?"
R "É, pois é, mas né, podia aproveitar mais..."
E "Calma, não te preocupa, fica tranquilo e aproveita que assim tu não vai ter que te preocupar em concorrer no mercado comigo..."
Até o precep sisudo não se aguentou e riu. Nem eu acreditei que aquele tanto de resposta estava saindo da ponta da minha língua! Hahaha... Foram muitas alfinetadas e de todos os lados, mas as relações já estavam estabelecidas e todas foram levadas muito no bom humor.
"Parabéns, tu foi uma das melhores doutorandas dos últimos tempos!"
sexta-feira, 28 de julho de 2017
Pré-conceitos
Se perguntarmos a alguém "tu tem preconceitos?", geralmente a pessoa responde rapidamente e quase ofendida que "não, né?".
Pois é, eu também queria acreditar que eu não tinha preconceitos. Não queria aceitar que eu também poderia ter defeitos que tanto eu abomino... Mas o fato é que vivemos numa sociedade pautada por pré-julgamentos e basta nascermos nela para absorvermos muitos conceitos e pré-conceitos mesmo sem perceber.
Eu gostaria de dizer "não, eu não tenho preconceitos", mas infelizmente sei que tenho. Não me orgulho disso, mas ao mesmo tempo esforço-me para não me culpar, pois não escolhi nascer nessa sociedade que trata como "normal" situações que infelizmente são apenas comuns. Pelo contrário, reconheço e aceito meus privilégios e luto a cada dia para desfazer meus comportamentos que se tornaram "medulares" mesmo sem eu querer.
Essa consciência não foi construída rápida nem facilmente - na verdade ainda está em construção. Mas posso dizer que um dos textos que mais me despertou para a reflexão foi o que segue. Boa leitura.
Eu, que sou a favor de cotas, que abomino racismo, que desde os tempos de creche tenho amigos e colegas negros (embora poucos, devido a disparidade absurda de renda média por cor de pele) senti um desconforto de alguns segundos.
Eu que tenho 24 anos, estava tranquilo no momento, não sou paranoico quanto à violência e tenho o ensino superior quase completo me preparei por segundos para atravessar a rua.
Eu que trabalho em hospital e posto de saúde com pacientes negros, funcionários negros, médicos negros, enfermeiros negros, etc e os julgo e respeito pelo conteúdo do caráter e não pela cor da pele, olhei para um pai e um filho andando na mesma rua que eu com roupas semelhantes às minhas e pensei 'quem são esses caras?'.
Quando passei pelos dois olhei para o menino, de uns 12 anos, e me senti triste, envergonhado, humilhado. Olhei então para o pai, que fez um rápido aceno de cabeça para mim, me olhando nos olhos, e o sentimento aumentou.
Se tivesse conseguido falar algo naquele momento teria pedido desculpas aos dois, teria parabenizado o pai pela coragem de sair na rua para ter um momento pai-e-filho em um país tão cheio de gente perigosa e preconceituosa em vez de deixar o medo de pequenos e grandes ataques racistas vencerem seu direito de ir e vir de noite e de dia.
E diria ao menino: "Não se contente com brancos não atravessando a rua e não desviando o olhar. Não se contente com cotas. Não se contente com um 'branco consciente' como eu."
E terminaria com: "Querem me dizer alguma coisa?" Porque eu sei que é importante que nós brancos falemos também de racismo, mas o principal é ouvir mais e mais de quem muito viveu mas ainda pouco foi ouvido sobre isso."
Gustavo HR
terça-feira, 11 de julho de 2017
Diversidade LGBTQIAP
A atual sigla LGBTQIAP (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, transsexuais, travestis, queer, intersex, assexuais, ally, pansexuais, não-binários)
1. Orientação sexual (por quem se sente atração sexual)
Homossexuais:
L = Lésbicas
Mulheres homossexuais. Mulheres que sentem atração sexual por mulheres.
G = Gays
Homens homossexuais. Homens que sentem atração sexual por homens.
B = Bissexuais
Mulheres e homens que sentem atração por mulheres e por homens, podendo ser de forma igualmente ou não.
A = Assexual
Pessoas que não sentem atração sexual por nenhum gênero, nem ninguém. Não se interessam por relações sexuais, o que não significa que não se interessam por relações e vínculos emocionais, por isso pessoais assexuais podem ter orientação sexual hetero/homo/bi. Por exemplo, um homem que não sente desejo sexual, porém se envolve romanticamente (sentimento) apenas com homens, é um homem assexual gay.
P = Pansexual
Pessoas que sentem atração sexual por pessoas de todas as orientações sexuais e identificações de gênero, ou seja, toda a gama LGBTQIA, em adição H – heterossexuais.
Frequentemente – e erroneamente – é confundido com atração por objetos, animais, plantas etc (o que é mentira). Também erroneamente confundida com bissexualidade, o que também é mentira pois nem todo bissexual sente atração por pessoas trans e/ou intersex. Pansexualidade já foi descrita como um meio de evitar os polos binários (homem/mulher) e o essencialismo da bissexualidade.
2. Identidade de gênero (como se identifica a si mesmo)
T = Transgêneros
Pessoas que se identificam com um gênero diferente daquele registrado no nascimento. Não tem nada a ver com a orientação sexual da pessoa, ou seja, com por quem ela sente ou deixa de sentir atração sexual.
E, ao contrário do que alguns podem pensar, antes de ser uma questão de orientação sexual, é uma questão de pertencimento cultural e social. Ser transgênero não implica um desejo de mudar de sexo biológico, nem a existência de atração por pessoas do mesmo sexo. O que há é um conflito de identidade de gênero.
Homem Trans: quando nasceu foi registradx como ‘Mulher’, porém identifica-se como ‘Homem’ e, portanto, é homem. Exemplo: Thammy (Thommy) Gretchen.
Mulher Trans: quando nasceu foi registradx como ‘Homem’, porém identifica-se como ‘Mulher’ e, portanto, é mulher. Exemplo: Laverne Cox.
Cisgênero
Contrário de Transgênero, ou seja, pessoas que se identificam com o gênero com o qual foram registradas no nascimento. Não tem nada a ver com a orientação sexual da pessoa, ou seja, com por quem ela sente ou deixa de sentir atração sexual.
Mulher Cis: quando nasceu, foi registrada como mulher e continua se identificando como mulher.
Homem Cis: quando nasceu, foi registrado como homem e continua se identificando como homem.
T = Transsexuais
É aquele que deseja alterar sua constituição biológica e fazer a mudança de sexo, sendo a cirurgia a única forma de se sentirem totalmente identificados e correspondidos na identidade de gênero que sentem pertencer, mas que não foi biologicamente atribuída.
Obs: esse conceito que distingue transgêneros e transsexuais dessa forma, é apenas uma das vertentes que existem atualmente. Há quem diga que transgênero seria o termo guarda-chuva que abrange os demais, e há quem diga que o guarda-chuva seja o transsexual. Ainda não há consenso sobre esse aspecto, portanto está mencionado o que nos parece mais comum.
T = Travestis
O termo travesti é um termo mais marginalizado. Está permeado de questões econômicas e sociais. Nas palavras da cartunista Laerte “Crosdresser é uma travesti de classe média”.
Muitas mudam seus nomes, corte de cabelo, modos e trejeitos, timbre de voz de acordo com o sexo almejado.
Algumas chegam a usar hormônios, realizar cirurgias plásticas, como o silicone nas mamas e nádegas, mas não há o desejo de mudar de sexo. Não anseiam nem procuram pela cirurgia sexual.
Ser travesti também não tem relação direta com a homossexualidade (orientação sexual). A travesti pode ser tanto heterossexual, homossexual ou bissexual.
3. Outros termos
Q = Queer
Um termo guarda-chuva que abraça uma variedade de preferências, orientações e hábitos sexuais das pessoas que não se encaixam na maioria heterossexual e cisgênera. O termo Queer inclue, mas não é exclusivo de lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersex. Tradicionalmente o termo seria pejorativo e ofensivo, mas muitas pessoas o usam para se auto-identificar de uma maneira positiva e orgulhosa.
Termo famoso: We’re here, we’re queer. (“estamos aqui, somos queer”)
I = Intersex
Pessoas intersex nasceram com genitália ambígua (antes eram chamados de hermafroditas, mas foi descoberto que esse termo não deve ser utilizado para humanos). As pessoas intersex podem vir a ser não-binárias, mas também podem se identificar apenas com um gênero. Pode incluir outras características de dimorfismo sexual como aspecto da face, voz, membros, pelos e formato de partes do corpo.
Exemplo: Roberta Close
Ally = Aliado
Pessoas que não se identificam como LGBTQIA, porém apoiam e lutam junto pelos direitos da sigla. Termo substituto para o antigo S de ‘Simpatizante’.
Não-Binários
Pessoas cujas características físicas e psicológicas não se categorizam exclusivamente como ‘masculino’ ou ‘feminino’. A pessoa pode em um dia se identificar e se apresentar como um gênero e no dia seguinte como outro. Também costumam usar o termo “Fluído” para se definir.
Exemplo: Liniker, Miley Cyrus (recentemente declarada).
Drag queens
São artistas performáticos que se vestem com figurinos artísticos, gerlamente femininos (mas não é necessário que sejam), independente da sua identidade de gênero, para apresentações. Não tem relação direta com orientação sexual nem com identidade de gênero.
Ex: Pabllo Vittar (homem cisgênero gay).
Crossdressers
São pessoas que usam roupas associadas ao gênero oposto no dia a dia, por interesse ou fetiche.
Ex: Em 2009, a cartunista Laerte admitiu ser crossdresser e acabou tornando-se porta-voz desse movimento. Atualmente, se identifica com o gênero feminino e afirma ser bissexual. Segundo ela, “o crossdresser é um travesti de classe média”.
4. Tipos de relacionamento:
Monogamia
Pessoas que mantém relacionamentos exclusivos, ou seja, quando está namorando com uma pessoa, tem acordo de fidelidade, de não ter envolvimento físico e/ou emocional com outras pessoas além daquela.
Poligamia / Poliandria
É quando uma pessoa retém o direito de se relacionar com mais de uma ao mesmo tempo. Por exemplo, uma mulher com direito de namorar/casar com outros cinco homens de sua escolha. Já esses homens escolhidos por ela não tem direito de se relacionar com outra pessoa que não ela. A poligamia está frequentemente relacionada com relacionamentos fixos, ou seja, namoro e casamento. Ela também é muito comum em diversas culturas de diversos países.
Relacionamento Aberto
É quando duas pessoas envolvidas em um relacionamento sério fixo (namoro/casamento) tem o acordo de que elas podem ter envolvimento físico com pessoas fora desse mesmo relacionamento. Geralmente, o acordo inclui regras como conversar antes para falar sobre o interesse em uma pessoa terceira e avisar previamente sobre esse envolvimento; também pode incluir a exigência de que sentimentos não sejam envolvidos com terceiros.
Poliamor
Frequentemente confundido com Poligamia, significa, na verdade, a exceção. É quando mais de duas pessoas se envolvem fisicamente e/ou emocionalmente num relacionamento conjunto. Por exemplo, quatro pessoas que mantém um relacionamento fixo entre si, sendo que as quatro se amam, se tocam, se beijam, mantém relações sexuais etc. Sabe o famoso “triângulo amoroso”? Ele é um poliamor.
Amor Livre – Relações Livres
O RLi defende a prática de todo tipo de relação amorosa – inclusive a monogâmica – não atrelada a quaisquer registros formais. Ou seja, pessoas que se relacionam sem entitular-se “namoradxs” ou “casadxs”, pois consideram isso uma forma de controle submissão. Surgiu como uma forma de embate à legislação das uniões amorosas.
1. Orientação sexual (por quem se sente atração sexual)
Homossexuais:
L = Lésbicas
Mulheres homossexuais. Mulheres que sentem atração sexual por mulheres.
G = Gays
Homens homossexuais. Homens que sentem atração sexual por homens.
B = Bissexuais
Mulheres e homens que sentem atração por mulheres e por homens, podendo ser de forma igualmente ou não.
A = Assexual
Pessoas que não sentem atração sexual por nenhum gênero, nem ninguém. Não se interessam por relações sexuais, o que não significa que não se interessam por relações e vínculos emocionais, por isso pessoais assexuais podem ter orientação sexual hetero/homo/bi. Por exemplo, um homem que não sente desejo sexual, porém se envolve romanticamente (sentimento) apenas com homens, é um homem assexual gay.
P = Pansexual
Pessoas que sentem atração sexual por pessoas de todas as orientações sexuais e identificações de gênero, ou seja, toda a gama LGBTQIA, em adição H – heterossexuais.
Frequentemente – e erroneamente – é confundido com atração por objetos, animais, plantas etc (o que é mentira). Também erroneamente confundida com bissexualidade, o que também é mentira pois nem todo bissexual sente atração por pessoas trans e/ou intersex. Pansexualidade já foi descrita como um meio de evitar os polos binários (homem/mulher) e o essencialismo da bissexualidade.
2. Identidade de gênero (como se identifica a si mesmo)
T = Transgêneros
Pessoas que se identificam com um gênero diferente daquele registrado no nascimento. Não tem nada a ver com a orientação sexual da pessoa, ou seja, com por quem ela sente ou deixa de sentir atração sexual.
E, ao contrário do que alguns podem pensar, antes de ser uma questão de orientação sexual, é uma questão de pertencimento cultural e social. Ser transgênero não implica um desejo de mudar de sexo biológico, nem a existência de atração por pessoas do mesmo sexo. O que há é um conflito de identidade de gênero.
Homem Trans: quando nasceu foi registradx como ‘Mulher’, porém identifica-se como ‘Homem’ e, portanto, é homem. Exemplo: Thammy (Thommy) Gretchen.
Mulher Trans: quando nasceu foi registradx como ‘Homem’, porém identifica-se como ‘Mulher’ e, portanto, é mulher. Exemplo: Laverne Cox.
Cisgênero
Contrário de Transgênero, ou seja, pessoas que se identificam com o gênero com o qual foram registradas no nascimento. Não tem nada a ver com a orientação sexual da pessoa, ou seja, com por quem ela sente ou deixa de sentir atração sexual.
Mulher Cis: quando nasceu, foi registrada como mulher e continua se identificando como mulher.
Homem Cis: quando nasceu, foi registrado como homem e continua se identificando como homem.
T = Transsexuais
É aquele que deseja alterar sua constituição biológica e fazer a mudança de sexo, sendo a cirurgia a única forma de se sentirem totalmente identificados e correspondidos na identidade de gênero que sentem pertencer, mas que não foi biologicamente atribuída.
Obs: esse conceito que distingue transgêneros e transsexuais dessa forma, é apenas uma das vertentes que existem atualmente. Há quem diga que transgênero seria o termo guarda-chuva que abrange os demais, e há quem diga que o guarda-chuva seja o transsexual. Ainda não há consenso sobre esse aspecto, portanto está mencionado o que nos parece mais comum.
T = Travestis
O termo travesti é um termo mais marginalizado. Está permeado de questões econômicas e sociais. Nas palavras da cartunista Laerte “Crosdresser é uma travesti de classe média”.
Muitas mudam seus nomes, corte de cabelo, modos e trejeitos, timbre de voz de acordo com o sexo almejado.
Algumas chegam a usar hormônios, realizar cirurgias plásticas, como o silicone nas mamas e nádegas, mas não há o desejo de mudar de sexo. Não anseiam nem procuram pela cirurgia sexual.
Ser travesti também não tem relação direta com a homossexualidade (orientação sexual). A travesti pode ser tanto heterossexual, homossexual ou bissexual.
3. Outros termos
Q = Queer
Um termo guarda-chuva que abraça uma variedade de preferências, orientações e hábitos sexuais das pessoas que não se encaixam na maioria heterossexual e cisgênera. O termo Queer inclue, mas não é exclusivo de lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersex. Tradicionalmente o termo seria pejorativo e ofensivo, mas muitas pessoas o usam para se auto-identificar de uma maneira positiva e orgulhosa.
Termo famoso: We’re here, we’re queer. (“estamos aqui, somos queer”)
I = Intersex
Pessoas intersex nasceram com genitália ambígua (antes eram chamados de hermafroditas, mas foi descoberto que esse termo não deve ser utilizado para humanos). As pessoas intersex podem vir a ser não-binárias, mas também podem se identificar apenas com um gênero. Pode incluir outras características de dimorfismo sexual como aspecto da face, voz, membros, pelos e formato de partes do corpo.
Exemplo: Roberta Close
Ally = Aliado
Pessoas que não se identificam como LGBTQIA, porém apoiam e lutam junto pelos direitos da sigla. Termo substituto para o antigo S de ‘Simpatizante’.
Não-Binários
Pessoas cujas características físicas e psicológicas não se categorizam exclusivamente como ‘masculino’ ou ‘feminino’. A pessoa pode em um dia se identificar e se apresentar como um gênero e no dia seguinte como outro. Também costumam usar o termo “Fluído” para se definir.
Exemplo: Liniker, Miley Cyrus (recentemente declarada).
Drag queens
São artistas performáticos que se vestem com figurinos artísticos, gerlamente femininos (mas não é necessário que sejam), independente da sua identidade de gênero, para apresentações. Não tem relação direta com orientação sexual nem com identidade de gênero.
Ex: Pabllo Vittar (homem cisgênero gay).
Crossdressers
São pessoas que usam roupas associadas ao gênero oposto no dia a dia, por interesse ou fetiche.
Ex: Em 2009, a cartunista Laerte admitiu ser crossdresser e acabou tornando-se porta-voz desse movimento. Atualmente, se identifica com o gênero feminino e afirma ser bissexual. Segundo ela, “o crossdresser é um travesti de classe média”.
4. Tipos de relacionamento:
Monogamia
Pessoas que mantém relacionamentos exclusivos, ou seja, quando está namorando com uma pessoa, tem acordo de fidelidade, de não ter envolvimento físico e/ou emocional com outras pessoas além daquela.
Poligamia / Poliandria
É quando uma pessoa retém o direito de se relacionar com mais de uma ao mesmo tempo. Por exemplo, uma mulher com direito de namorar/casar com outros cinco homens de sua escolha. Já esses homens escolhidos por ela não tem direito de se relacionar com outra pessoa que não ela. A poligamia está frequentemente relacionada com relacionamentos fixos, ou seja, namoro e casamento. Ela também é muito comum em diversas culturas de diversos países.
Relacionamento Aberto
É quando duas pessoas envolvidas em um relacionamento sério fixo (namoro/casamento) tem o acordo de que elas podem ter envolvimento físico com pessoas fora desse mesmo relacionamento. Geralmente, o acordo inclui regras como conversar antes para falar sobre o interesse em uma pessoa terceira e avisar previamente sobre esse envolvimento; também pode incluir a exigência de que sentimentos não sejam envolvidos com terceiros.
Poliamor
Frequentemente confundido com Poligamia, significa, na verdade, a exceção. É quando mais de duas pessoas se envolvem fisicamente e/ou emocionalmente num relacionamento conjunto. Por exemplo, quatro pessoas que mantém um relacionamento fixo entre si, sendo que as quatro se amam, se tocam, se beijam, mantém relações sexuais etc. Sabe o famoso “triângulo amoroso”? Ele é um poliamor.
Amor Livre – Relações Livres
O RLi defende a prática de todo tipo de relação amorosa – inclusive a monogâmica – não atrelada a quaisquer registros formais. Ou seja, pessoas que se relacionam sem entitular-se “namoradxs” ou “casadxs”, pois consideram isso uma forma de controle submissão. Surgiu como uma forma de embate à legislação das uniões amorosas.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
Sobre vínculo, confiança, respeito e verdade
Plantão na sutura do HPS:
Estava esperando chegarem pacientes. Ouço a técnica de enfermagem chamar um paciente. Vejo ela fechando as cortinas do leito e fico curiosa, vou lá e vejo uma paciente deitada com a barriga para baixo, a saia levantada e um corte a ser suturado na nádega.
Volto à tela dos pacientes para verificar quem ela era e qual era a história e encontro dois pacientes:
Marlene* de 89 anos e Wellington* de 28 anos.
Tenho um estranhamento inicial e nesse meio tempo chega minha colega e pergunta: "como assim? Tem alguma coisa errada!" Em seguida, eu já raciocino e lhe digo: pode ser uma pessoa trans :)
Minha colega se dirige ao leito e já inicia a higienização, já que eu tinha feito a sutura do paciente anterior e fazemos revezamento.
Abro o prontuário do paciente chamado Wellington e a história refere ferimento em nádega. Ao mesmo tempo, escuto a técnica contando para outra: "ah, ele disse que as crianças estavam descascando uma fruta, deixaram uma faca em cima do sofá e ele não viu e sentou em cima."
Resolvo me dirigir ao leito. Minha colega está anestesiando a paciente de saia.
Me aproximo. Vejo sua saia, sua blusa, seu sutiã, sua bolsa e seu cabelo pintado. Cumprimento-lhe, me apresento e lhe pergunto: "como tu gosta de ser chamad?" "De Gabi*!!!" Responde ela com um sorriso de orelha a orelha.
Fico feliz com o sorriso e a receptividade dela comigo e me sinto à vontade para puxar assunto.
"Poxa, que coisa, ali no sistema está o outro nome! Sabia que tu pode oficializar teu nome social?"
"Sabia e eu fiz! Mas eu perdi a minha carteira com o nome social e daí eles não aceitam colocar ele e têm que colocar o outro..."
"Puuutz, que ruim, sinto muito por ti! E já pensou em pegar uma segunda via?"
"Sim, mas é complicado..."
"Eu imagino... Mas e onde tu mora?"
"Ah, moro na Restinga, mas vivo mais pelo centro..."
"Ah, lá na Restinga tem posto de saúde, né?"
"Sim, tem sim..."
"Mas quando tu diz que vive mais pelo centro, tu quer dizer que está em situação de rua?"
"Sim!"
"Hmmm... mas se tu fica mais pelo centro, tu por acaso é atendida pelo consultório na rua?"
"Sim!!! Lá do Santa Marta!"
"Aaah, legal!!! Eles são uma equipe bem boa, né?"
"Aham!!!"
"Acompanha com eles?"
"Sim, sim"
"Legal! Mas então... ééé... o que que tu te considera?"
"Como assim?"
"Ai, desculpa se eu estou sendo indelicada, mas é que eu gosto muito do assunto LGBT! Não precisa falar nada!"
"Não, não, falar é melhor! Eu me considero trans!"
"Aaaah, legal!!! E tu tá bem com a tua imagem corporal?"
"Como assim?"
"Tu te sente bem com tua genitália?"
"Sim!"
"Já operou?"
"Não!"
"Gostaria?"
"Não..."
"Ah bom, que bom! E hormônios? Já teve vontade de tomar?"
"Já tomei!!! Tomei por conta uma época... mas minha médica... pq lá no Santa Marta eu acompanho para cuidar de outra doença, aquela sabe?"
"Aquela que trata com 'três em um'?"
"Essa mesma... Ela me pediu para eu nunca mais fazer isso! Pq agora estou seguindo o tratamento! Faz três meses que estou tomando os remédios direitinho!"
"Poxa, que legal, parabéns!!! Maaas, tu comentou que tá em situação de rua, né? Como que faz para tomar o medicamento certinho?"
"Ah, eu pego no posto, deixo na minha bolsa e levo sempre comigo!"
"Entendi! Que legal, parabéns mesmo!"
"É, é que ano passado eu perdi minha irmã por causa dessa mesma doença... daí eu decidi que queria tratar dessa vez. Faz dois anos que eu descobri que tinha!"
"Puxa, sinto muito pela tua perda. Mas fico feliz que tu tenha decidido seguir o tratamento agora. Mas eu imagino que seja muito difícil!"
"É sim... para mim, a ficha só caiu quando peguei os remédios na mão e tive que tomar... muito ruim, ainda tem muito preconceito na sociedade, sabe?"
"Sei sim..."
"Pois é, mas daí agora tá tudo certo!"
"Com certeza... mas e tu costuma usar preservativos nas tuas relações? Tu e a tua ou o teu parceiro no caso, né?"
"Ah sim, eu sei que a gente pode pegar outras doenças tbm, já tive sífilis e tratei, mas daí peguei de novo..."
"Sim, sim, mas sífilis a gente pode tratar. Se tu pegou de novo, pode tratar de novo. O problema são outras doenças, como hepatites por exemplo."
"Sim, por isso sempre uso!"
"Que ótimo, parabéns mesmo! Mas e como que é a aceitação pelos teus pais? Eles te apoiam?"
"Siiiim! Claro, no início não né, mas hoje a minha mãe vive pedindo para eu voltar para casa..."
"Sério?! Que demais!!! Isso é incrível!!! E por que tu não volta?"
"Ah, pq é difícil... ainda tem muito preconceito né... não consigo emprego e me sinto muito mal de ficar morando com ela sem poder ajudar. Não gosto de ver ela trabalhando e eu lá sem poder ajudar..."
"Hmm.. entendo, complicado né? Eu imagino que seja muito difícil, mas pensa com carinho nesse pedido dela... Na rua tu acaba ficando tão exposta ao ódio de tantas pessoas... Imagino que tu já deve ter passado por situações tão delicadas e deve ter mil histórias para contar."
"Ah, com certeza, é muito difícil ficar por aí... eu sou o combo completo: mulher, preta e pobre! Não é fácil!"
"Pois é, eu imagino... Mas enfim, pensa nisso, cuida de ti, te protege como for possível se assim tu achar melhor. Por que por mais que tu não possa trabalhar fora, pensa assim: tua mãe tá tendo que trabalhar duas vezes: fora para ganhar dinheiro e dentro de casa para manter tudo em dia, não é?"
"Sim..."
"Então se tu for para casa, mesmo que não traga dinheiro para casa, se ajudar com as tarefas do dia a dia já vai estar ajudando e muito ela!"
"Sim, é bem isso que ela me diz!!!"
"Então! Pensa com carinho... Quem sabe, né? Hehehe..."
Vejo que minha colega está terminando a sutura e resolvo finalmente fazer a pergunta que eu geralmente faria no início da 'anamnese' do HPS:
"Mas então, o que que aconteceu contigo para ficar com esse corte aí mesmo?"
"Ah, um ex-namorado... ele não aceita que eu não quero mais... daí eu tava lá na minha e do nada quando eu vi já tava com minha bunda sangrando..."
"Puuutz, que ruim!!! Sinto muito! Mas agora minha colega já está terminando e vai ficar bem!"
"Ai, sim, muito obrigada vocês duas! Muito queridas! Porque eu agora tô desse jeito: com dois furos na bunda! Hahahaha..."
*nomes fictícios.
sexta-feira, 17 de março de 2017
A Medicina Rural na (e a) minha vida
Para começar, não sei bem nem de onde veio o gosto pela medicina. Não tenho parentes médicos. Sei que quero desde pequena, pois meus pais me contam. Sei também que quando eu estava na oitava série do ensino fundamental meu pai me questionou se eu realmente queria medicina. Ao confirmar sua pergunta, ele resolveu ir atrás de uma bolsa em escola particular para eu cursar o ensino médio e assim ter mais chances no vestibular... Depois disso, no terceiro ano do ensino médio, vendo que o buraco era mais embaixo para o vestibular, tentei gostar de outros cursos e não teve jeito. Então foi uma escolha quase que por exclusão, hehehe...
Texto escrito em 05/06/2016 e editado em 17/03/2017.
Depois que entrei na medicina em 2012, pensava em pediatria, obstetrícia, ginecologia... Todas opções generalistas... Mas ao mesmo tempo, nenhuma me satisfazia, pq não queria atender a só um grupo específico de pacientes. E, ao mesmo tempo, ainda sabia que não teria reconhecimento profissional se resolvesse ser só clínica geral sem residência. Até que numa atividade prática, ainda do primeiro semestre, conheci um médico de família, o Dr, Guilherme! Fiquei chocada! Não podia acreditar que existia uma residência para eu fazer exatamente o que eu queria: cuidar de todos os grupos, de tudo, do ser humano como um todo!
Após isso, resolvi participar da "Jornada Gaucha da História da Medicina" e escolhi falar sobre a história da Medicina de Família e Comunidade (MFC) já que eu estava louca para conhecer melhor essa especialidade. Tive a sorte de ser orientada por um professor que tinha o contato do Dr. José Mauro que por sua vez me colocou em contato com o grande pai da MFC: Dr. Carlos Grossman. Com isso, tive a imensa honra de entrevista o Dr. Grossman na casa dele mesmo e pautar minha apresentação (que apresentei no segundo semestre da faculdade) com a biografia desse médico excepcional.
Concomitantemente a tudo isso, entre o primeiro e o segundo semestre, participei do projeto VER-SUS (Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde) e tive a oportunidade de conhecer o papel dos médicos de família na prática! Dali em diante, não tive mais dúvidas de que essa seria a minha escolha de residência.
Na sequência, em 2014, no meu terceiro ano de faculdade, eu vivia uma grande crise pessoal, pois mesmo sabendo que essa era a profissão que eu queria seguir, não me identificava com a maioria dos colegas, nem com a maioria dos professores, nem com as declarações das instituições que teoricamente deveriam me representar, como CREMERS ou SIMERS. Nesse contexto, me empolguei muito com a possibilidade de participar do evento de MFC em Gramado: 12ª Conferência Mundial de Saúde Rural de WONCA e IV Congresso Sul-Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade! De fato foi a melhor escolha que eu poderia ter feito! Lá, além de conseguir forças e ânimo para seguir essa faculdade tão complexa (em todos os sentidos, sejam acadêmicos, emocionais ou psicológicos), conheci a DENEM (Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina - finalmente uma instituição médica que me representava mesmo sem eu a conhecer) e a medicina rural! De início, a medicina rural me parecia bastante distante e fora do meu contexto pessoal de alguém que nasceu e viveu em uma capital toda vida.
Na sequência da minha história de vida, resolvi participar do Ciência sem Fronteiras por ser uma oportunidade inigualável de conhecer outras realidades. Mas, enquanto eu achava que só seria possível realizar cadeiras que eu já tinha cursado aqui, não me chamava a atenção ir atrás dessa possibilidade. Quando eu descobri a existência do curso de Saúde Pública e que eu poderia cursá-lo, encontrei o incentivo que me faltava para ir atrás desse sonho. De início, cogitei fazer o intercâmbio entre os países Canadá e Inglaterra por serem os países com os sistemas públicos de saúde que pautaram a criação do SUS. Dai a escolha entre esses foi bem pessoal, com vistas à possibilidade de conhecer a Europa. Depois de escolhido o curso e o país, a faculdade e a cidade foram apenas consequência. Dessa forma, o que veio foi a Anglia Ruskin University, em que o campus com Saúde Pública não era o em Cambridge, mas o de Chelmsford, uma cidade pequena de 230 mil habitantes (pequena em comparação a Porto Alegre, minha cidade natal, que conta com mais de um milhão e meio de habitantes). De início, eu não sabia se isso seria uma boa escolha ou não, mas me animava a ideia de poder ter contato com britânicos do interior e com a língua inglesa do interior. De fato, a escolha foi perfeita: me apaixonei pelo dia a dia de uma cidade pequena, pude estudar sobre o NHS (National Health System) e conhecê-lo na prática!
Durante o intercâmbio, entrei em contato com o Dr. John Wynn-Jones, médico britânico que conheci durante o evento de 2014 em Gramado, em busca de melhores oportunidades de estágio já que o estágio oferecido pela Anglia Ruskin me parecia pouco. Ele foi uma pessoa incrível, responsável por me oportunizar duas experiência excelentes: uma semana dentro do departamento de saúde pública de Londres e outra com uma médica de família, a Dra. Charlotte (GP), na zona sul de Londres. Além disso, ele me colocou em contato com seus alunos do País de Gales e com uma estudante, não só brasileira, mas também estudante do RS, a Mayara Floss. A partir desse contato, passei a ter maiores experiências com a medicina rural e a perceber que essa tinha tudo a ver com o que já tinha vivido até aquele momento, principalmente após viver em Chelmsford!!!
Passei a perceber que já estava muito mais envolvida com a medicina rural do que eu podia imaginar e que esse era meu caminho. Depois do retorno do intercâmbio, passei a fazer parte do Rural Family Medicine Café, a ter contato com o GT Rural da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade) e a tocar para frente a LiMFaC (Liga de Medicina de Família e Comunidade da PUCRS), a qual contava agora com um novo diretor docente, o professor André, que inclusive era o MFC diretor do setor rural da SBMFC!!!
Essa pessoa, médico, professor, incrível, me trouxe mais uma oportunidade de viver a MFC e mais especificamente a medicina rural: três semanas de estágio em sua unidade de saúde que fica em zona rururbana de Porto Alegre. Foram três semanas absolutamente intensas e perfeitas. Foi de fato meu primeiro estágio em que eu atuei e pude perceber exatamente na prática como é a profissão que penso em seguir. E foi o momento auge em que pela primeira vez tive vontade de pular todos semestres de faculdade que me restam para me formar e me tornar uma MFC logo!
Texto escrito em 05/06/2016 e editado em 17/03/2017.
quinta-feira, 16 de março de 2017
"Pastor e quebrador de tabu? Sim!"
"Deus, na revelação bíblica, se manifesta a partir da experiência e da luta dos oprimidos. Jesus é Deus assumindo a condição humana e popular. Não há conhecimento da verdade fora da consciência histórica de que toda injustiça é um peso para o coração de Deus. Sendo assim, Deus se manifesta para além de recortes doutrinários e institucionais, pois o vento sagrado sopra onde a luta por vida plena se faz presente. Sendo Deus profundamente identificado com a luta por justiça, é possível afirmar que Deus é mulher, preto, pobre, indígena, lgbt, sem teto, sem terra, refugiado, faminto... São nessas realidades concretas e nesses corpos estigmatizados que Deus expressa seu rosto, seu grito, seu protesto, sua esperança. Muitos vão considerar escandalosa essa afirmação, pois ainda pensam Deus a partir de um controle doutrinário. Mas Jesus é escandaloso mesmo, derrete dogmas para se identificar com as pessoas, para assumir a condição do sofrimento humano e da luta por justiça como palco para percepção da atuação de Deus na história."
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Henrique Vieira é pastor, professor, formado em teologia, história e ciências sociais, e e do canal Esperançar.
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Da página "Quebrando o Tabu - 16/03/2017"
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Henrique Vieira é pastor, professor, formado em teologia, história e ciências sociais, e e do canal Esperançar.
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Da página "Quebrando o Tabu - 16/03/2017"
quarta-feira, 15 de março de 2017
A quem considera bullying exagero
Eu gostaria de fazer algumas perguntas a uma pessoa que muito implicou comigo minha vida inteira.
"Tu realmente nunca percebeu o quanto tuas brincadeiras me machucavam?
Tu realmente nunca percebeu todas as vezes que eu segurei o choro depois de uma brincadeira tua?
Tu realmente nunca percebeu que cada vez que tu me chamava de gorda ou de chata eu acreditava (mesmo sem querer) nas tuas palavras?
Tu realmente nunca percebeu que eu sempre tive dificuldades com a minha autoestima e que com cada brincadeira tua ela ficava ainda pior?
Tu realmente nunca percebeu que seria mais fácil tu parar de sentir prazer em implicar comigo do que eu simplesmente deixar de sofrer com as brincadeiras?
Tu realmente, mas realmente mesmo, nunca percebeu que, até hoje, para mim, elas não são apenas brincadeiras?"
Não importa a mensagem que queremos passar, mas sim a mensagem que foi passada. Não importa se tu "não fazia por mal", porque me fazia muito mal. Ainda faz. Mas faz menos. Por quê? Por causa do feminismo - movimento também considerado exagero por alguns.
"Tu realmente nunca percebeu o quanto tuas brincadeiras me machucavam?
Tu realmente nunca percebeu todas as vezes que eu segurei o choro depois de uma brincadeira tua?
Tu realmente nunca percebeu que cada vez que tu me chamava de gorda ou de chata eu acreditava (mesmo sem querer) nas tuas palavras?
Tu realmente nunca percebeu que eu sempre tive dificuldades com a minha autoestima e que com cada brincadeira tua ela ficava ainda pior?
Tu realmente nunca percebeu que seria mais fácil tu parar de sentir prazer em implicar comigo do que eu simplesmente deixar de sofrer com as brincadeiras?
Tu realmente, mas realmente mesmo, nunca percebeu que, até hoje, para mim, elas não são apenas brincadeiras?"
Não importa a mensagem que queremos passar, mas sim a mensagem que foi passada. Não importa se tu "não fazia por mal", porque me fazia muito mal. Ainda faz. Mas faz menos. Por quê? Por causa do feminismo - movimento também considerado exagero por alguns.
segunda-feira, 6 de março de 2017
Vivências, reflexões, paradoxos
A especialidade médica que mais gosto hoje em dia é a Medicina de Família e Comunidade, que tem como campo principal de atuação a Atenção Primária à Saúde - a qual, por sua vez, conta com a territorialidade como um de seus princípios, ou seja, o médico de família é responsável por pacientes dentro de uma área adscrita.Por outro lado, populações vulneráveis é um assunto que sempre me chamou atenção e meu clímax foi quando a LiMFaC linda organizou o I Simpósio de Populações Vulneráveis no ano passado - que por sinal foi um sucesso. Dentre essas populações, temos a população de pessoas em situação de rua, que, dentro do SUS, é atendida também pelo Consultório na Rua - ou seja, uma equipe de saúde da família itinerante vai em direção dos pacientes em situação de rua e presta serviços onde eles estiverem independentemente de comprovação de endereço do domicílio.
Eis que no momento estou passando pelo estágio obrigatório de urgência e emergência no HPS, mais especificamente na área de sutura.
No última sábado, atendi um paciente que teve seu lóbulo da orelha arrancado por um alicate após uma tentativa de assalto em que ele não tinha o que oferecer ao assaltante. O paciente estava muito assustado e chateado pela perda de uma parte de seu corpo - o que de fato é extremamente compreensível, mas que no dia a dia dos serviços de saúde os profissionais, por se tornar comum, quase tratam como normal (palavras que deveriam ter seus significados mais diferenciados na minha opinião...). Após a sutura, eu e minha colega fomos dar as orientações de troca diária de curativos e retirada dos pontos em dez dias. Ele perguntou onde deveria fazer isso. Eu expliquei-lhe que, pela legislação, ele tem o direito de ser atendido em qualquer unidade de saúde da família e não deve ser obrigado a comprovar endereço. Entretanto, ele insistiu dizendo que já houve vezes em que não lhe prestaram serviço por ser um "fora de área". Infelizmente, eu lhe compreendi, pois já fiz alguns estágios em unidades e sei que, dependendo do profissional disponível no momento, os considerados "fora de área" de fato acabam sendo discriminados. Então perguntei-lhe se tinha o seu cartão SUS consigo. Ele negou. Tive a ideia de imprimi-lo no computador, mas o site de resgate de cartão SUS estava bloqueado no computador da sala. Não desisti. Acessei o site pelo celular, pedi os dados do paciente, resgatei seu número de cartão SUS e escrevi uma carta:
"Ao posto de saúde,
Realizar troca diária de curativo e retirada de pontos em dez dias.
Cartão SUS: xxx.xxx.xxx.xxx
Grata"
Pode ser que ainda assim ele tenha dificuldades, mas sei que ao menos fiz o que pude para facilitar a empreitada que ele poderia vir a enfrentar...
Depois disso, mais uma pessoa em situação de rua. Um paciente que refere ter levado uma paulada na cabeça também por tentativa de assalto. Estava bastante gemente e gerava certa contratransferencia que tirava a vontade de trocar palavras com ele. Mas enfrentei esse sentimento e dialogamos. Deixei-o falar sobre suas inquietudes e dificuldades vividas no cotidiano. Dentre elas, comentou que essa foi a segunda vez que foi assaltado em pouco tempo, que dessa vez levaram seu celular, que dentro dele estava um chip da vivo e que ainda teria que pagar a conta de 60 reais. Expliquei que faria a anestesia e depois os pontos. Esbravejou bastante enquanto anestesiava, mas depois calou-se para sutura-lo. Terminei, despedi-me e fiquei pensando no significado de 60 reais para cada um.
Por fim, mais um paciente em situação de rua, politraumatizado, veio encaminhado para a sutura também por lesão em couro cabeludo. Estava com diversos hematomas no corpo e teve dificuldade em colocar o casaco, pois estava com frio. Enquanto aguardávamos leito, ele olhou para mim e minha colega e perguntou se poderíamos limpar seu pescoço que estava sujo de sangue seco. O técnico fez a tricotomia para que pudéssemos enxergar a lesão. Era indicativo de sutura mesmo, portanto teríamos que fazer a assepsia do local. Eis que veio aquele pedido inesperado: "se puder, cuida pra não molhar meu casaco, é o único que eu tenho". De fato o técnico foi cuidadoso, limpou e suturamos. Entretanto, era troca de turno... terminamos a sutura e veio novo técnico. Tentou lavar o pescoço, mas acabou sendo um pouco bruto e esfregou onde havia um hematoma. O paciente gemeu de dor, o técnico bufou de impaciência. O pescoço não foi lavado e o casaco ficou molhado.
No última sábado, atendi um paciente que teve seu lóbulo da orelha arrancado por um alicate após uma tentativa de assalto em que ele não tinha o que oferecer ao assaltante. O paciente estava muito assustado e chateado pela perda de uma parte de seu corpo - o que de fato é extremamente compreensível, mas que no dia a dia dos serviços de saúde os profissionais, por se tornar comum, quase tratam como normal (palavras que deveriam ter seus significados mais diferenciados na minha opinião...). Após a sutura, eu e minha colega fomos dar as orientações de troca diária de curativos e retirada dos pontos em dez dias. Ele perguntou onde deveria fazer isso. Eu expliquei-lhe que, pela legislação, ele tem o direito de ser atendido em qualquer unidade de saúde da família e não deve ser obrigado a comprovar endereço. Entretanto, ele insistiu dizendo que já houve vezes em que não lhe prestaram serviço por ser um "fora de área". Infelizmente, eu lhe compreendi, pois já fiz alguns estágios em unidades e sei que, dependendo do profissional disponível no momento, os considerados "fora de área" de fato acabam sendo discriminados. Então perguntei-lhe se tinha o seu cartão SUS consigo. Ele negou. Tive a ideia de imprimi-lo no computador, mas o site de resgate de cartão SUS estava bloqueado no computador da sala. Não desisti. Acessei o site pelo celular, pedi os dados do paciente, resgatei seu número de cartão SUS e escrevi uma carta:
"Ao posto de saúde,
Realizar troca diária de curativo e retirada de pontos em dez dias.
Cartão SUS: xxx.xxx.xxx.xxx
Grata"
Pode ser que ainda assim ele tenha dificuldades, mas sei que ao menos fiz o que pude para facilitar a empreitada que ele poderia vir a enfrentar...
Depois disso, mais uma pessoa em situação de rua. Um paciente que refere ter levado uma paulada na cabeça também por tentativa de assalto. Estava bastante gemente e gerava certa contratransferencia que tirava a vontade de trocar palavras com ele. Mas enfrentei esse sentimento e dialogamos. Deixei-o falar sobre suas inquietudes e dificuldades vividas no cotidiano. Dentre elas, comentou que essa foi a segunda vez que foi assaltado em pouco tempo, que dessa vez levaram seu celular, que dentro dele estava um chip da vivo e que ainda teria que pagar a conta de 60 reais. Expliquei que faria a anestesia e depois os pontos. Esbravejou bastante enquanto anestesiava, mas depois calou-se para sutura-lo. Terminei, despedi-me e fiquei pensando no significado de 60 reais para cada um.
Por fim, mais um paciente em situação de rua, politraumatizado, veio encaminhado para a sutura também por lesão em couro cabeludo. Estava com diversos hematomas no corpo e teve dificuldade em colocar o casaco, pois estava com frio. Enquanto aguardávamos leito, ele olhou para mim e minha colega e perguntou se poderíamos limpar seu pescoço que estava sujo de sangue seco. O técnico fez a tricotomia para que pudéssemos enxergar a lesão. Era indicativo de sutura mesmo, portanto teríamos que fazer a assepsia do local. Eis que veio aquele pedido inesperado: "se puder, cuida pra não molhar meu casaco, é o único que eu tenho". De fato o técnico foi cuidadoso, limpou e suturamos. Entretanto, era troca de turno... terminamos a sutura e veio novo técnico. Tentou lavar o pescoço, mas acabou sendo um pouco bruto e esfregou onde havia um hematoma. O paciente gemeu de dor, o técnico bufou de impaciência. O pescoço não foi lavado e o casaco ficou molhado.
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