A especialidade médica que mais gosto hoje em dia é a Medicina de Família e Comunidade, que tem como campo principal de atuação a Atenção Primária à Saúde - a qual, por sua vez, conta com a territorialidade como um de seus princípios, ou seja, o médico de família é responsável por pacientes dentro de uma área adscrita.Por outro lado, populações vulneráveis é um assunto que sempre me chamou atenção e meu clímax foi quando a LiMFaC linda organizou o I Simpósio de Populações Vulneráveis no ano passado - que por sinal foi um sucesso. Dentre essas populações, temos a população de pessoas em situação de rua, que, dentro do SUS, é atendida também pelo Consultório na Rua - ou seja, uma equipe de saúde da família itinerante vai em direção dos pacientes em situação de rua e presta serviços onde eles estiverem independentemente de comprovação de endereço do domicílio.
Eis que no momento estou passando pelo estágio obrigatório de urgência e emergência no HPS, mais especificamente na área de sutura.
No última sábado, atendi um paciente que teve seu lóbulo da orelha arrancado por um alicate após uma tentativa de assalto em que ele não tinha o que oferecer ao assaltante. O paciente estava muito assustado e chateado pela perda de uma parte de seu corpo - o que de fato é extremamente compreensível, mas que no dia a dia dos serviços de saúde os profissionais, por se tornar comum, quase tratam como normal (palavras que deveriam ter seus significados mais diferenciados na minha opinião...). Após a sutura, eu e minha colega fomos dar as orientações de troca diária de curativos e retirada dos pontos em dez dias. Ele perguntou onde deveria fazer isso. Eu expliquei-lhe que, pela legislação, ele tem o direito de ser atendido em qualquer unidade de saúde da família e não deve ser obrigado a comprovar endereço. Entretanto, ele insistiu dizendo que já houve vezes em que não lhe prestaram serviço por ser um "fora de área". Infelizmente, eu lhe compreendi, pois já fiz alguns estágios em unidades e sei que, dependendo do profissional disponível no momento, os considerados "fora de área" de fato acabam sendo discriminados. Então perguntei-lhe se tinha o seu cartão SUS consigo. Ele negou. Tive a ideia de imprimi-lo no computador, mas o site de resgate de cartão SUS estava bloqueado no computador da sala. Não desisti. Acessei o site pelo celular, pedi os dados do paciente, resgatei seu número de cartão SUS e escrevi uma carta:
"Ao posto de saúde,
Realizar troca diária de curativo e retirada de pontos em dez dias.
Cartão SUS: xxx.xxx.xxx.xxx
Grata"
Pode ser que ainda assim ele tenha dificuldades, mas sei que ao menos fiz o que pude para facilitar a empreitada que ele poderia vir a enfrentar...
Depois disso, mais uma pessoa em situação de rua. Um paciente que refere ter levado uma paulada na cabeça também por tentativa de assalto. Estava bastante gemente e gerava certa contratransferencia que tirava a vontade de trocar palavras com ele. Mas enfrentei esse sentimento e dialogamos. Deixei-o falar sobre suas inquietudes e dificuldades vividas no cotidiano. Dentre elas, comentou que essa foi a segunda vez que foi assaltado em pouco tempo, que dessa vez levaram seu celular, que dentro dele estava um chip da vivo e que ainda teria que pagar a conta de 60 reais. Expliquei que faria a anestesia e depois os pontos. Esbravejou bastante enquanto anestesiava, mas depois calou-se para sutura-lo. Terminei, despedi-me e fiquei pensando no significado de 60 reais para cada um.
Por fim, mais um paciente em situação de rua, politraumatizado, veio encaminhado para a sutura também por lesão em couro cabeludo. Estava com diversos hematomas no corpo e teve dificuldade em colocar o casaco, pois estava com frio. Enquanto aguardávamos leito, ele olhou para mim e minha colega e perguntou se poderíamos limpar seu pescoço que estava sujo de sangue seco. O técnico fez a tricotomia para que pudéssemos enxergar a lesão. Era indicativo de sutura mesmo, portanto teríamos que fazer a assepsia do local. Eis que veio aquele pedido inesperado: "se puder, cuida pra não molhar meu casaco, é o único que eu tenho". De fato o técnico foi cuidadoso, limpou e suturamos. Entretanto, era troca de turno... terminamos a sutura e veio novo técnico. Tentou lavar o pescoço, mas acabou sendo um pouco bruto e esfregou onde havia um hematoma. O paciente gemeu de dor, o técnico bufou de impaciência. O pescoço não foi lavado e o casaco ficou molhado.
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