Depois que entrei na medicina em 2012, pensava em pediatria, obstetrícia, ginecologia... Todas opções generalistas... Mas ao mesmo tempo, nenhuma me satisfazia, pq não queria atender a só um grupo específico de pacientes. E, ao mesmo tempo, ainda sabia que não teria reconhecimento profissional se resolvesse ser só clínica geral sem residência. Até que numa atividade prática, ainda do primeiro semestre, conheci um médico de família, o Dr, Guilherme! Fiquei chocada! Não podia acreditar que existia uma residência para eu fazer exatamente o que eu queria: cuidar de todos os grupos, de tudo, do ser humano como um todo!
Após isso, resolvi participar da "Jornada Gaucha da História da Medicina" e escolhi falar sobre a história da Medicina de Família e Comunidade (MFC) já que eu estava louca para conhecer melhor essa especialidade. Tive a sorte de ser orientada por um professor que tinha o contato do Dr. José Mauro que por sua vez me colocou em contato com o grande pai da MFC: Dr. Carlos Grossman. Com isso, tive a imensa honra de entrevista o Dr. Grossman na casa dele mesmo e pautar minha apresentação (que apresentei no segundo semestre da faculdade) com a biografia desse médico excepcional.
Concomitantemente a tudo isso, entre o primeiro e o segundo semestre, participei do projeto VER-SUS (Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde) e tive a oportunidade de conhecer o papel dos médicos de família na prática! Dali em diante, não tive mais dúvidas de que essa seria a minha escolha de residência.
Na sequência, em 2014, no meu terceiro ano de faculdade, eu vivia uma grande crise pessoal, pois mesmo sabendo que essa era a profissão que eu queria seguir, não me identificava com a maioria dos colegas, nem com a maioria dos professores, nem com as declarações das instituições que teoricamente deveriam me representar, como CREMERS ou SIMERS. Nesse contexto, me empolguei muito com a possibilidade de participar do evento de MFC em Gramado: 12ª Conferência Mundial de Saúde Rural de WONCA e IV Congresso Sul-Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade! De fato foi a melhor escolha que eu poderia ter feito! Lá, além de conseguir forças e ânimo para seguir essa faculdade tão complexa (em todos os sentidos, sejam acadêmicos, emocionais ou psicológicos), conheci a DENEM (Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina - finalmente uma instituição médica que me representava mesmo sem eu a conhecer) e a medicina rural! De início, a medicina rural me parecia bastante distante e fora do meu contexto pessoal de alguém que nasceu e viveu em uma capital toda vida.
Na sequência da minha história de vida, resolvi participar do Ciência sem Fronteiras por ser uma oportunidade inigualável de conhecer outras realidades. Mas, enquanto eu achava que só seria possível realizar cadeiras que eu já tinha cursado aqui, não me chamava a atenção ir atrás dessa possibilidade. Quando eu descobri a existência do curso de Saúde Pública e que eu poderia cursá-lo, encontrei o incentivo que me faltava para ir atrás desse sonho. De início, cogitei fazer o intercâmbio entre os países Canadá e Inglaterra por serem os países com os sistemas públicos de saúde que pautaram a criação do SUS. Dai a escolha entre esses foi bem pessoal, com vistas à possibilidade de conhecer a Europa. Depois de escolhido o curso e o país, a faculdade e a cidade foram apenas consequência. Dessa forma, o que veio foi a Anglia Ruskin University, em que o campus com Saúde Pública não era o em Cambridge, mas o de Chelmsford, uma cidade pequena de 230 mil habitantes (pequena em comparação a Porto Alegre, minha cidade natal, que conta com mais de um milhão e meio de habitantes). De início, eu não sabia se isso seria uma boa escolha ou não, mas me animava a ideia de poder ter contato com britânicos do interior e com a língua inglesa do interior. De fato, a escolha foi perfeita: me apaixonei pelo dia a dia de uma cidade pequena, pude estudar sobre o NHS (National Health System) e conhecê-lo na prática!
Durante o intercâmbio, entrei em contato com o Dr. John Wynn-Jones, médico britânico que conheci durante o evento de 2014 em Gramado, em busca de melhores oportunidades de estágio já que o estágio oferecido pela Anglia Ruskin me parecia pouco. Ele foi uma pessoa incrível, responsável por me oportunizar duas experiência excelentes: uma semana dentro do departamento de saúde pública de Londres e outra com uma médica de família, a Dra. Charlotte (GP), na zona sul de Londres. Além disso, ele me colocou em contato com seus alunos do País de Gales e com uma estudante, não só brasileira, mas também estudante do RS, a Mayara Floss. A partir desse contato, passei a ter maiores experiências com a medicina rural e a perceber que essa tinha tudo a ver com o que já tinha vivido até aquele momento, principalmente após viver em Chelmsford!!!
Passei a perceber que já estava muito mais envolvida com a medicina rural do que eu podia imaginar e que esse era meu caminho. Depois do retorno do intercâmbio, passei a fazer parte do Rural Family Medicine Café, a ter contato com o GT Rural da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade) e a tocar para frente a LiMFaC (Liga de Medicina de Família e Comunidade da PUCRS), a qual contava agora com um novo diretor docente, o professor André, que inclusive era o MFC diretor do setor rural da SBMFC!!!
Essa pessoa, médico, professor, incrível, me trouxe mais uma oportunidade de viver a MFC e mais especificamente a medicina rural: três semanas de estágio em sua unidade de saúde que fica em zona rururbana de Porto Alegre. Foram três semanas absolutamente intensas e perfeitas. Foi de fato meu primeiro estágio em que eu atuei e pude perceber exatamente na prática como é a profissão que penso em seguir. E foi o momento auge em que pela primeira vez tive vontade de pular todos semestres de faculdade que me restam para me formar e me tornar uma MFC logo!
Texto escrito em 05/06/2016 e editado em 17/03/2017.
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