sexta-feira, 17 de março de 2017

A Medicina Rural na (e a) minha vida

Para começar, não sei bem nem de onde veio o gosto pela medicina. Não tenho parentes médicos. Sei que quero desde pequena, pois meus pais me contam. Sei também que quando eu estava na oitava série do ensino fundamental meu pai me questionou se eu realmente queria medicina. Ao confirmar sua pergunta, ele resolveu ir atrás de uma bolsa em escola particular para eu cursar o ensino médio e assim ter mais chances no vestibular... Depois disso, no terceiro ano do ensino médio, vendo que o buraco era mais embaixo para o vestibular, tentei gostar de outros cursos e não teve jeito. Então foi uma escolha quase que por exclusão, hehehe... 

Depois que entrei na medicina em 2012, pensava em pediatria, obstetrícia, ginecologia... Todas opções generalistas... Mas ao mesmo tempo, nenhuma me satisfazia, pq não queria atender a só um grupo específico de pacientes. E, ao mesmo tempo, ainda sabia que não teria reconhecimento profissional se resolvesse ser só clínica geral sem residência. Até que numa atividade prática, ainda do primeiro semestre, conheci um médico de família, o Dr, Guilherme! Fiquei chocada! Não podia acreditar que existia uma residência para eu fazer exatamente o que eu queria: cuidar de todos os grupos, de tudo, do ser humano como um todo! 

Após isso, resolvi participar da "Jornada Gaucha da História da Medicina" e escolhi falar sobre a história da Medicina de Família e Comunidade (MFC) já que eu estava louca para conhecer melhor essa especialidade. Tive a sorte de ser orientada por um professor que tinha o contato do Dr. José Mauro que por sua vez me colocou em contato com o grande pai da MFC: Dr. Carlos Grossman. Com isso, tive a imensa honra de entrevista o Dr. Grossman na casa dele mesmo e pautar minha apresentação (que apresentei no segundo semestre da faculdade) com a biografia desse médico excepcional. 

Concomitantemente a tudo isso, entre o primeiro e o segundo semestre, participei do projeto VER-SUS (Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde) e tive a oportunidade de conhecer o papel dos médicos de família na prática! Dali em diante, não tive mais dúvidas de que essa seria a minha escolha de residência. 

Na sequência, em 2014, no meu terceiro ano de faculdade, eu vivia uma grande crise pessoal, pois mesmo sabendo que essa era a profissão que eu queria seguir, não me identificava com a maioria dos colegas, nem com a maioria dos professores, nem com as declarações das instituições que teoricamente deveriam me representar, como CREMERS ou SIMERS. Nesse contexto, me empolguei muito com a possibilidade de participar do evento de MFC em Gramado: 12ª Conferência Mundial de Saúde Rural de WONCA e IV Congresso Sul-Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade! De fato foi a melhor escolha que eu poderia ter feito! Lá, além de conseguir forças e ânimo para seguir essa faculdade tão complexa (em todos os sentidos, sejam acadêmicos, emocionais ou psicológicos), conheci a DENEM (Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina finalmente uma instituição médica que me representava mesmo sem eu a conhecer) e a medicina rural! De início, a medicina rural me parecia bastante distante e fora do meu contexto pessoal de alguém que nasceu e viveu em uma capital toda vida. 

Na sequência da minha história de vida, resolvi participar do Ciência sem Fronteiras por ser uma oportunidade inigualável de conhecer outras realidades. Mas, enquanto eu achava que só seria possível realizar cadeiras que eu já tinha cursado aqui, não me chamava a atenção ir atrás dessa possibilidade. Quando eu descobri a existência do curso de Saúde Pública e que eu poderia cursá-lo, encontrei o incentivo que me faltava para ir atrás desse sonho. De início, cogitei fazer o intercâmbio entre os países Canadá e Inglaterra por serem os países com os sistemas públicos de saúde que pautaram a criação do SUS. Dai a escolha entre esses foi bem pessoal, com vistas à possibilidade de conhecer a Europa. Depois de escolhido o curso e o país, a faculdade e a cidade foram apenas consequência. Dessa forma, o que veio foi a Anglia Ruskin University, em que o campus com Saúde Pública não era o em Cambridge, mas o de Chelmsford, uma cidade pequena de 230 mil habitantes (pequena em comparação a Porto Alegre, minha cidade natal, que conta com mais de um milhão e meio de habitantes). De início, eu não sabia se isso seria uma boa escolha ou não, mas me animava a ideia de poder ter contato com britânicos do interior e com a língua inglesa do interior. De fato, a escolha foi perfeita: me apaixonei pelo dia a dia de uma cidade pequena, pude estudar sobre o NHS (National Health System) e conhecê-lo na prática! 

Durante o intercâmbio, entrei em contato com o Dr. John Wynn-Jones, médico britânico que conheci durante o evento de 2014 em Gramado, em busca de melhores oportunidades de estágio já que o estágio oferecido pela Anglia Ruskin me parecia pouco. Ele foi uma pessoa incrível, responsável por me oportunizar duas experiência excelentes: uma semana dentro do departamento de saúde pública de Londres e outra com uma médica de família, a Dra. Charlotte (GP), na zona sul de Londres. Além disso, ele me colocou em contato com seus alunos do País de Gales e com uma estudante, não só brasileira, mas também estudante do RS, a Mayara Floss. A partir desse contato, passei a ter maiores experiências com a medicina rural e a perceber que essa tinha tudo a ver com o que já tinha vivido até aquele momento, principalmente após viver em Chelmsford!!!

Passei a perceber que já estava muito mais envolvida com a medicina rural do que eu podia imaginar e que esse era meu caminho. Depois do retorno do intercâmbio, passei a fazer parte do Rural Family Medicine Café, a ter contato com o GT Rural da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade) e a tocar para frente a LiMFaC (Liga de Medicina de Família e Comunidade da PUCRS), a qual contava agora com um novo diretor docente, o professor André, que inclusive era o MFC diretor do setor rural da SBMFC!!! 

Essa pessoa, médico, professor, incrível, me trouxe mais uma oportunidade de viver a MFC e mais especificamente a medicina rural: três semanas de estágio em sua unidade de saúde que fica em zona rururbana de Porto Alegre. Foram três semanas absolutamente intensas e perfeitas. Foi de fato meu primeiro estágio em que eu atuei e pude perceber exatamente na prática como é a profissão que penso em seguir. E foi o momento auge em que pela primeira vez tive vontade de pular todos semestres de faculdade que me restam para me formar e me tornar uma MFC logo!

Texto escrito em 05/06/2016 e editado em 17/03/2017.

quinta-feira, 16 de março de 2017

"Pastor e quebrador de tabu? Sim!"

"Deus, na revelação bíblica, se manifesta a partir da experiência e da luta dos oprimidos. Jesus é Deus assumindo a condição humana e popular. Não há conhecimento da verdade fora da consciência histórica de que toda injustiça é um peso para o coração de Deus. Sendo assim, Deus se manifesta para além de recortes doutrinários e institucionais, pois o vento sagrado sopra onde a luta por vida plena se faz presente. Sendo Deus profundamente identificado com a luta por justiça, é possível afirmar que Deus é mulher, preto, pobre, indígena, lgbt, sem teto, sem terra, refugiado, faminto... São nessas realidades concretas e nesses corpos estigmatizados que Deus expressa seu rosto, seu grito, seu protesto, sua esperança. Muitos vão considerar escandalosa essa afirmação, pois ainda pensam Deus a partir de um controle doutrinário. Mas Jesus é escandaloso mesmo, derrete dogmas para se identificar com as pessoas, para assumir a condição do sofrimento humano e da luta por justiça como palco para percepção da atuação de Deus na história."


Henrique Vieira é pastor, professor, formado em teologia, história e ciências sociais, e e do canal Esperançar.


Da página "Quebrando o Tabu - 16/03/2017"

quarta-feira, 15 de março de 2017

A quem considera bullying exagero

Eu gostaria de fazer algumas perguntas a uma pessoa que muito implicou comigo minha vida inteira.

 "Tu realmente nunca percebeu o quanto tuas brincadeiras me machucavam?

Tu realmente nunca percebeu todas as vezes que eu segurei o choro depois de uma brincadeira tua?

Tu realmente nunca percebeu que cada vez que tu me chamava de gorda ou de chata eu acreditava (mesmo sem querer) nas tuas palavras?

Tu realmente nunca percebeu que eu sempre tive dificuldades com a minha autoestima e que com cada brincadeira tua ela ficava ainda pior?

Tu realmente nunca percebeu que seria mais fácil tu parar de sentir prazer em implicar comigo do que eu simplesmente deixar de sofrer com as brincadeiras?

 Tu realmente, mas realmente mesmo, nunca percebeu que, até hoje, para mim, elas não são apenas brincadeiras?"


 Não importa a mensagem que queremos passar, mas sim a mensagem que foi passada. Não importa se tu "não fazia por mal", porque me fazia muito mal. Ainda faz. Mas faz menos. Por quê? Por causa do feminismo - movimento também considerado exagero por alguns.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Vivências, reflexões, paradoxos

A especialidade médica que mais gosto hoje em dia é a Medicina de Família e Comunidade, que tem como campo principal de atuação a Atenção Primária à Saúde - a qual, por sua vez, conta com a territorialidade como um de seus princípios, ou seja, o médico de família é responsável por pacientes dentro de uma área adscrita.Por outro lado, populações vulneráveis é um assunto que sempre me chamou atenção e meu clímax foi quando a LiMFaC linda organizou o I Simpósio de Populações Vulneráveis no ano passado - que por sinal foi um sucesso. Dentre essas populações, temos a população de pessoas em situação de rua, que, dentro do SUS, é atendida também pelo Consultório na Rua - ou seja, uma equipe de saúde da família itinerante vai em direção dos pacientes em situação de rua e presta serviços onde eles estiverem independentemente de comprovação de endereço do domicílio.  Eis que no momento estou passando pelo estágio obrigatório de urgência e emergência no HPS, mais especificamente na área de sutura.

No última sábado, atendi um paciente que teve seu lóbulo da orelha arrancado por um alicate após uma tentativa de assalto em que ele não tinha o que oferecer ao assaltante. O paciente estava muito assustado e chateado pela perda de uma parte de seu corpo - o que de fato é extremamente compreensível, mas que no dia a dia dos serviços de saúde os profissionais, por se tornar comum, quase tratam como normal (palavras que deveriam ter seus significados mais diferenciados na minha opinião...). Após a sutura, eu e minha colega fomos dar as orientações de troca diária de curativos e retirada dos pontos em dez dias. Ele perguntou onde deveria fazer isso. Eu expliquei-lhe que, pela legislação, ele tem o direito de ser atendido em qualquer unidade de saúde da família e não deve ser obrigado a comprovar endereço. Entretanto, ele insistiu dizendo que já houve vezes em que não lhe prestaram serviço por ser um "fora de área". Infelizmente, eu lhe compreendi, pois já fiz alguns estágios em unidades e sei que, dependendo do profissional disponível no momento, os considerados "fora de área" de fato acabam sendo discriminados. Então perguntei-lhe se tinha o seu cartão SUS consigo. Ele negou. Tive a ideia de imprimi-lo no computador, mas o site de resgate de cartão SUS estava bloqueado no computador da sala. Não desisti. Acessei o site pelo celular, pedi os dados do paciente, resgatei seu número de cartão SUS e escrevi uma carta:
 "Ao posto de saúde,
 Realizar troca diária de curativo e retirada de pontos em dez dias. 
Cartão SUS: xxx.xxx.xxx.xxx
 Grata"
 Pode ser que ainda assim ele tenha dificuldades, mas sei que ao menos fiz o que pude para facilitar a empreitada que ele poderia vir a enfrentar...

Depois disso, mais uma pessoa em situação de rua. Um paciente que refere ter levado uma paulada na cabeça também por tentativa de assalto. Estava bastante gemente e gerava certa contratransferencia que tirava a vontade de trocar palavras com ele. Mas enfrentei esse sentimento e dialogamos. Deixei-o falar sobre suas inquietudes e dificuldades vividas no cotidiano. Dentre elas, comentou que essa foi a segunda vez que foi assaltado em pouco tempo, que dessa vez levaram seu celular, que dentro dele estava um chip da vivo e que ainda teria que pagar a conta de 60 reais. Expliquei que faria a anestesia e depois os pontos. Esbravejou bastante enquanto anestesiava, mas depois calou-se para sutura-lo. Terminei, despedi-me e fiquei pensando no significado de 60 reais para cada um.

Por fim, mais um paciente em situação de rua, politraumatizado, veio encaminhado para a sutura também por lesão em couro cabeludo. Estava com diversos hematomas no corpo e teve dificuldade em colocar o casaco, pois estava com frio. Enquanto aguardávamos leito, ele olhou para mim e minha colega e perguntou se poderíamos limpar seu pescoço que estava sujo de sangue seco. O técnico fez a tricotomia para que pudéssemos enxergar a lesão. Era indicativo de sutura mesmo, portanto teríamos que fazer a assepsia do local. Eis que veio aquele pedido inesperado: "se puder, cuida pra não molhar meu casaco, é o único que eu tenho". De fato o técnico foi cuidadoso, limpou e suturamos. Entretanto, era troca de turno... terminamos a sutura e veio novo técnico. Tentou lavar o pescoço, mas acabou sendo um pouco bruto e esfregou onde havia um hematoma. O paciente gemeu de dor, o técnico bufou de impaciência. O pescoço não foi lavado e o casaco ficou molhado.